PAULO FONTENELLE DE ARAUJO

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AS CRIANÇAS DO GENERAL MÉDICI


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Em 1971, quando eu estava na segunda série do primário, o presidente do Brasil, general Emílio Garrastazu Médici, visitou a minha cidade e eu fui convocada para recebê-lo no aeroporto junto com as autoridades da região.
Lembro-me de que, antes da visita, eu havia sido eleita Miss Caipirinha na festa junina da prefeitura. Recebera medalha da aluna mais estudiosa das escolas do município e, diante de tantas vitórias, julguei a escolha perfeita.
O presidente da República viria até mim e a cidade comemoraria a safra recorde na produção de batatas. Aliás, se não me falha a memória, foi esse o provável motivo da visita: as batatas. Nossos tubérculos farináceos eram exportados para mais de cinco países.
Não me lembro bem o mês e o dia da semana, uma quarta ou quinta-feira de setembro.
Havia muitos seguranças na pista de pouso. Examinaram o buquê que eu trazia. Provavelmente desconfiavam de uma bomba entre as flores do campo. Não sei.
Informaram-me que o ramalhete seria entregue para a primeira-dama, logo na descida da aeronave. Sim, eu tenho certeza. A destinatária do embrulho florido era a mulher do presidente general... se ele viesse acompanhado da esposa.
Pensando bem, não foi a safra recorde de nenhum legume que justificou a presença do homem ali. Minha cidade nunca produziu muitas batatas. Ela era conhecida por ser a terra natal de um famoso personagem da República Velha. Um senhor de nome estranho que fez bonito na Europa durante a conferência pela divisão da África, e o General Médici, provavelmente, esperava honrar algum princípio republicano, visitando o túmulo do tal político.
Sim, foi isso, o presidente havia nascido no fim do Segundo Império, lutara na Guerra do Paraguai, e por isso amava a República e o Marechal Deodoro e amaria também a minha cidade, homenageando um túmulo.
Tantas homenagens e agora percebo... ninguém me contou se ele gostou de alguma coisa ou experimentou a famosa cachaça da cidade. Não me recordo agora o nome da cachaça. Tinha nome de uma flor.
As crianças trocadilhavam o nome do presidente. Criavam uma imagem caótica, alegórica. Chamavam o homem de “General Milho Garrafa Azul Médico”. Tratava-se de uma brincadeira inocente.
Os detalhes da visita. O avião atrasou-se e durante duas horas, postei-me na área de desembarque. Ali eu me senti a legítima representante dos estudantes brasileiros.
Segurei as flores que me segredaram ser uma oferenda para a esposa do presidente... Isso eu já disse, mas também afirmaram, durante a espera, que o presidente nem esposa tinha e não gostava de flores.
Essa última declaração deixou-me ansiosa, delirante e, no meu devaneio, julguei que, para um general do Exército, ex-combatente da Guerra do Paraguai, o melhor presente seria mesmo a bomba procurada pelos seguranças.
O prefeito decretara feriado municipal. As escolas compareceram às festividades atrás do cordão de isolamento. A visita tinha muita relação também com certo planejamento do ensino primário ou o fim do analfabetismo adulto. Sim, o analfabetismo adulto foi citado pelo prefeito e marcaria o discurso presidencial.
Diziam que o presidente não gostava de discursos, que os seus pronunciamentos eram redigidos pelos assessores. Eu pensei nisso na hora. O homem não gosta de nada. Como eu cumpriria minha missão? Era a minha missão entregar o ramalhete de flores.
Agora não sei se tinha algum outro presente, a camisa do antigo time de futebol da cidade.
A camisa era o outro presente. Eu sei disso porque o presidente Médici pelo menos parecia ser fã de futebol. Ele sempre era filmado no estádio do Maracanã, assistindo aos jogos da seleção. Segurava o radinho de pilha na orelha. Conferia os resultados da loteria esportiva.
Eu olhava aquele velhinho pela tevê e imaginava como ele poderia ser o construtor da Transamazônica: a maior estrada do mundo. Vi uma foto na capa da revista “Realidade”. Realidade era o nome da revista.
Sempre falavam da Transamazônica. Hoje eu nem sei. Sumiu na floresta? No mapa do Brasil, era uma cicatriz. A professora contou, a estrada podia ser vista da Lua. Igual à Muralha da China.
Às onze da manhã, o avião presidencial começou a sobrevoar a região. Fez muitos círculos no espaço aéreo da minha cidade (tão pequena e tinha espaço aéreo) e tantas voltas deram que pensei na hipótese da aeronave não pousar sem antes verificar as intenções da população.
O avião parecia um morcego prateado. Cintilava quando subia... Mas a espera foi insuportável porque o dia estava muito quente.
Mais tarde esclareceu-se que o general esperava a presença do não menos ilustre Senhor Governador do Estado. O velho de terno azul que chegou cercado por policiais.
Depois estenderam o tapete vermelho e a escadaria onde o avião deveria parar. O tapete era tão vermelho e macio que imaginei o presidente pisando uma extensa língua. A boca seria a porta da aeronave. Eu e as autoridades seríamos os dentes.
Alinharam-me na segunda ou terceira posição para o cumprimento. Sentia-me deslocada, todos estavam nervosos e quando o avião finalmente pousou... eu desmaiei... em cima do tapete. Acho que as flores foram entregues por outra menina de plantão.
Não pude contar para ninguém ter recebido em minha cidade o ditador Médici, mas hoje penso na minha sorte. Imagine o meu comprometimento. Eu talvez me sentisse como colaboradora da ditadura. Cortariam os meus cabelos. Poderia ser apontada na rua, xingada de cadela sardenta, não sei.


“Muito me orgulha entregar estas flores para um homem que eu tanto respeito e admiro e cujas grandes obras muito têm contribuído para o progresso do meu país.”

Essa frase decorada é a única lembrança realmente consistente daquele dia. Algo pitoresco...do mesmo modo que...vislumbrar algo travado, uma batata... germinando dentro de um copo.

 
   
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