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EQUOTERAPIA COMO AUXILIADOR NO PROCESSO DE INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL

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Descrição:
Esse artigo é um resumo das vivências profissionais da autora e do trabalho de conclusão de curso apresentado como requisição para obtenção do título de especialista em Educação Especial com ênfase em Deficiência Intelectual pela Unirio.

O presente trabalho visa uma reflexão sobre o processo de inclusão da pessoa com deficiência intelectual através da Equoterapia, que é um método terapêutico que utiliza o cavalo como instrumento de trabalho para auxiliar o desenvolvimento motor, emocional e social de pessoas portadoras de deficiência e/ou necessidades especiais, baseado na prática de atividades eqüestres e técnica de equitação.

Atualmente, o tema da inclusão é um dos assuntos mais discutidos entre os profissionais da saúde e educação, destacando-se a importância da valorização do sentimento de cidadania e a inserção de todos dentro de um programa educacional adequado, proporcionando ao indivíduo o direito de aprender, estar inserido em um meio social e ser feliz. A inclusão nos proporciona uma nova visão, desperta nos indivíduos suas potencialidades e nos apresenta novos caminhos, que envolvem família, escola e atividades extra-muros, que contribuirão para o pleno desenvolvimento desse indivíduo com deficiência intelectual (RATTO, 1999)

A deficiência intelectual se distingue pela incapacidade de generalizar, classificar, abstrair e analisar. Gera, assim, sérios problemas em relação à aprendizagem, ao desenvolvimento motor e a fala, devido aos sérios comprometimentos funcionais cerebrais.(RELVAS, 2008).

A equoterapia é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência e/ou necessidades especiais. (ANDE-BRASIL, 1999, P.33)

EQUOTERAPIA = (ORIGEM NO LATIM ÉQUUS – ADOTANDO O RADICAL EQUO + TERAPIA QUE VEM DO GREGO THERAPEIA )

Ela emprega as técnicas de equitação e atividades equestres para proporcionar ao praticante benefícios físicos, psicológicos, educacionais e sociais. Essa atividade exige a participação do corpo inteiro, contribuindo assim, para o desenvolvimento do tônus e da força muscular, o relaxamento, a conscientização do próprio corpo, o equilíbrio, o aperfeiçoamento da coordenação motora, a atenção, a auto-confiança e a auto-estima. Assim, a equoterapia, trabalha o praticante de forma global.

Na história da humanidade o cavalo teve importante participação, ao longo dos séculos. Inicialmente, o cavalo,  serviu de caça, para alimentar a fome, foi utilizado como meio de veneração e de crença, na fabricação de soro e vacina. Mais tarde, o homem percebeu que o cavalo, poderia dar uma colaboração muito maior suprindo suas necessidades de deslocamento quer sendo montado, tracionando carros ou arados etc. O cavalo foi utilizado nas guerras, nos esportes, nos transportes, nas viagens, no lazer, enfim em inúmeras atividades. (ANDE-BRASIL, 1999, P.33)

Em um breve relato histórico, podemos destacar o  uso do cavalo como forma de terapia que  data desde 458-370 a.C.,quando Hipócrates no seu “Livro das Dietas” aconselhava o uso do cavalo para “regenerar a saúde e preservar o corpo humano de muitas doenças, mas sobretudo para o tratamento da insônia” de seus pacientes. Afirmava ainda, que “a equitação praticada ao ar livre faz com que os músculos melhorem seu tônus”.

Daremos um destaque para LIZ HARTEL , nascida na Dinamarca, em 14 de março de 1921, é um exemplo de luta e perseverança no esporte. Quando as mulheres conseguem pela primeira vez o direito de participar das provas de adestramento equestre, nos Jogos Olímpicos de Helsinque-1952, Hartel já era uma veterana. Em 1944, aos 23 anos de idade, Lis foi vítima de uma forma grave de poliomielite a ponto de durante muito tempo, ficar limitada a uma cadeira de rodas e, posteriormente, a muletas. Progressivamente, ela conseguiu reativar a maior parte da sua musculatura ficando, porém, sem nenhum movimento abaixo dos joelhos. Mesmo assim, contrariando a todos, continuou no esporte que adotara.

Oito anos depois, nas Olimpíadas de 1952, foi premiada com a medalha de prata em adestramento, competindo com os melhores cavaleiros do mundo. O público só percebeu seu estado quando ela, ao apear do cavalo para subir ao pódio, teve de se valer de duas bengalas canadenses. Esta façanha foi repetida 4 anos depois, nas Olimpíadas de Melbourne, em 1956.

Avançando para tempos atuais, podemos destacar a grandiosa importância da ANDE-Brasil (Associação Nacional de Equoterapia) para a equoterapia no nosso país. Criada em 1989, em Brasília – DF a  ANDE-BRASIL, permitiu que o tratamento tornasse maior impulso. Em 1990, foi realizada a primeira sessão de equoterapia com pacientes,no centro da ANDE-BRASIL, com apoio dos profissionais de saúde do Hospital do Aparelho Locomotor - SARA. A Equoterapia foi reconhecida no Brasil como método terapêutico em 1997 pelo conselho Federal de Medicina (parecer 6/ 97, aprovado em sessão plenária de 9 de abril de 1997).

E por que usamos o cavalo? 

A partir do encontro homem-cavalo, a vontade de um supera grandes desafios com a força e agilidade física do outro. Sem sombra de dúvida, o cavalo é um dos poucos animais que marcaram presença desde sempre nas conquistas do homem e dados históricos comprovam sua contribuição na evolução do mundo. A fascinação ambivalente, composta de atração e medo, documentada já na arte (JUNG, 1999). A convivência entre o homem e o animal possibilita uma integração e um entendimento que torna o cavalo um amigo do homem.  

No que se tange ao uso do cavalo como agente de reabilitação, podemos destacar um dos pontos principais: o cavalo como agente produtor de um movimento cinesioterapêutico. Os movimentos do cavalo são semelhantes ao nosso, ao passo ele nos leva a memória neuromuscular do nosso esquema corporal, ou seja, do conhecimento e da representação das partes do nosso corpo de maneira global. No sentido do equilíbrio, a fusão de percepção e o movimento têm seu ponto culminante, pois é a atividade sensorial complexa que permite o estado de equilíbrio. Só ele pode proporcionar às pessoas com necessidades especiais, através de seu movimento tridimensional, as condições para uma reabilitação. Só o cavalo pode transmitir ao seu cavaleiro uma sensação de segurança, pelo calor de seu corpo e das batidas do seu coração.

Segundo UZUN (2005) O ato de montar a cavalo nos permite, por meio de uma dinâmica motora e relacional, a restauração da nossa imagem corporal, favorecendo ao equilíbrio corporal e psíquico

O uso da equoterapia como atividade complementar de terapia para a  pessoa com deficiência e/ou necessidades educacionais especiais, entre outras diversas patologias, desde Atraso de Linguagem, Síndromes, Distúrbios Neuromotores, Transtorno do Espectro Autista, Depressão, Transtornos de Processamento Sensorial, Transtornos de Aprendizagem, entre outros, permite que haja diversos benefícios em diversos âmbitos da vida desses indivíduos. Entre eles podemos destacar: a melhora no equilíbrio, na coordenação motora, melhora da postura, adequação do tônus muscular e alongamento e flexibilidade muscular, dissociação de movimentos das cinturas escapular e pélvica, a melhora nos padrões anormais através da quebra de padrões patológicos, a consciência corporal, esquema e imagem corporal, melhora na respiração e na circulação, a integração dos sentidos, as funções intelectivas (cognição), estimulando a memória, concentração, atenção (visual e auditiva), lateralidade, ritmo, associação de idéias, organização do pensamento, análise e síntese, a fala e a linguagem sempre através de atividades em cima do cavalo, todas essas atividades adaptadas para a montaria com auxilio de recursos pedagógicos e do material de montaria adaptado.

Por fim, entre outros benefícios encontramos nos estudos a melhora no apetite, digestão e deglutição (controle de sialorréia), melhora da fadiga, ganhos obtidos nas atividade de vida diária (AVD’s), auto confiança / auto estima, bem-estar e um maior interesse pelo mundo exterior. E um dos grandes benefícios, para mim talvez um dos principais, os benefícios sociais, pois o praticante dessa atividade, necessita sair de casa, encontra com diversos profissionais, participa de forma ativa no cuidado ao animal e em seu tratamento, sendo assim, se torna agente ativo no seu processo terapêutico. A equoterapia irá proporcionar ao praticante uma amplitude do mundo em que vive. Nela, ele encontrará outra forma de se socializar, encontrará pessoas que mesmo que ele já conheça, será de outra forma, eles serão praticantes, cavaleiros ou amazonas e não pacientes..

O estímulo proporcionado na prática equoterápica, oferece à criança especial, um trabalho interdisciplinar, nos aspectos da educação, saúde e promoção social, com possibilidades de um novo olhar para o mundo que o rodeia, ultrapassando os portões escolares e institucionais. Pois permite, a criança o contato com a natureza, participando de trilhas sob o dorso do cavalo, conquistando novas formas de aprendizagem, possibilitando fazer uma educação corporal para a melhora nas funções motoras, sem negar a importância da educação ambiental, facilitando assim, o seu desempenho em sala de aula e propiciando torná-lo cada vez mais independente e sujeito integrado.

Diante dessas ideias, considera-se que a proposta da educação inclusiva envolve diversas áreas da sociedade e que possuem um mesmo compromisso: quebrar paradigmas. As crianças de hoje serão adultos amanhã, portanto, deverão ser estimulados e incentivados, dentro e fora do contexto escolar, pois as duas coisas estão interligadas.

A atuação prática da equoterapia, busca atender as necessidades da criança especial, como atividade extra-curricular, que complementará de forma direta e indireta o seu desenvolvimento biopsicossocial. Todos esses benefícios proporcionados pela equoterapia, farão com que o seu praticante tenha um melhor desempenho escolar, uma vida social mais integrada, promovendo e contribuindo para o processo de inclusão social.

Acreditar nas possibilidades da criança é o mesmo que fazer com que ela interaja com o meio, independente de sua condição física, mental, sensorial. É permitir que ela se relacione, dar condições para que ela se expresse, se descubra. Se entenda como um indivíduo como qualquer outro com suas virtudes, complexidades e potencialidades.

A equoterapia faz com que esse indivíduo segregado, rotulado, possa vibrar com suas conquistas. Ela proporciona muito mais do que “pernas” ao indivíduo cadeirante, muito mais do que “olhos” ao indivíduo cego. Ela proporciona inclusão, promove a integração social, ela mostra aquele que estava escondido. Como diz Freire (1999): “Cavalgar neste animal dócil, porém de porte avantajado, leva o praticante a experimentar sentimentos de liberdade, independência e capacidade; sentimentos importantíssimos para a aquisição da autoconfiança, realização e auto-estima”.

Portanto, o universo do cavalo parece beneficiar o universo escolar. Uma coisa completa a outra. A equoterapia é uma atividade complementar, não é uma mágica e assim, como qualquer técnica terapêutica dever ser realizada com muita segurança, técnica e habilitação profissional, por profissionais capacitados. Uma atividade depende da outra. Escola, família, lazer, atividades terapêuticas, assim como a equoterapia devem andar juntas. Promovendo assim a verdadeira inclusão, onde todos se completam e se acrescentam.

Por fim, espera-se demonstrando e a importância da Equoterapia como um tratamento complementar para pessoas portadoras de deficiência, pois segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) 14, 5% da população apresenta algum tipo de deficiência e diante dessa estatística, podemos colocar em evidência a necessidade de novas propostas que auxiliem o processo de inclusão e que assim, possam promover o desenvolvimento biopsicossocial desses indivíduos. 

Para finalizar, deixo com vocês uma breve reflexão sobre minha vivência ao longo de belos 12 anos atuando na área da educação especial, no convívio diário dessas pessoas incríveis que nos ensinam a cada dia que temos muito mais a aprender com elas, do que elas conosco. É necessário que a gente se permita ousar, -  claro! com técnica e conhecimento -  quando o assunto for proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas que possuem algum tipo de deficiência!  Entender a importância de sermos agentes multiplicadores de afeto e dedicação já nos abre uma grande visão terapêutica para contribuirmos para a evolução daqueles que depositam esperança no nosso trabalho e técnica. 


“O futuro é uma astronave

Que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade

Nem tem hora de chegar

Sem pedir licença muda nossa vida

E depois convida a rir ou chorar...

Nessa estrada não nos cabe

Conhecer ou ver o que virá

O fim dela ninguém sabe

Bem ao certo onde vai dar

Vamos todos numa linda passarela

De uma aquarela que um dia enfim

Descolorirá...” (Toquinho)


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CLÁUDIO JOAQUIM
18/10/2018 - 12:10:53
Parabéns por sua sensibilidade, carinho, dedicação e profissionalismo. Maravilhoso texto. Nos presenteou com um texto sublime com muita qualidade e correção. Adorei.