ROBERTO SCHIMA

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ENTRE A VIDA E A MORTE

ENTRE A VIDA E A MORTE

Roberto Schima


1
MORTE

A escuridão o rodeava, emanava dele feito névoa a escor-rer de um bloco de gelo. E, igualmente, era fria, esparramando-se sutilmente de suas vestes puídas.
- Mais uma - suspirou, satisfeito. Fez um breve silêncio a fim de saborear o momento. Era sempre assim, aquele misto de prazer e doçura, o encanto da proximidade do fim. Ergueu os bra-ços e filosofou com seus botões em tom solene, sentindo-se o próprio Shakespeare (a quem, havia muito, levara consigo): - Sou um lavrador a ceifar a colheita e a semear sombras sobre a vastidão sem limites da terra.
Riu consigo, não que pudesse evitá-lo, pois, seu rosto descarnado era a máscara de um eterno sorriso.
- ... a colheita... o prazer... a doçura... sempre.
A seus pés, a densa escuridão acumulou-se numa poça abismal. E, através dela, observou seu próprio reflexo. Um rosto devastado pelas eras, eterno em sua força e em seu destino.
- Sempre... - murmurou, pensativo.
O semblante cadavérico na poça de trevas moveu o maxi-lar. Era feito somente de ossos. Um crânio branco, manchado de amarelo pelo tempo e trincado numa das têmporas, a destacar-se de dentro do capuz. Apesar da idade, carregava todos os dentes, o que lhe era motivo de orgulho e vaidade. A tudo observava, por toda parte, apesar das órbitas vazias. Os ombros estavam envoltos por um manto imun-do, antigo como a primeira estrela a cintilar na aurora do tempo. Fiapos do tecido tremulavam, submetidos ao vento impie-doso de todas as amarguras. O vento se fazia de voz para todas as dores e gemia, uivos altos e longos. Tornou a suspirar. Era um trabalha-dor dedicado.
- Um lavrador a ceifar a colheita - repetiu, coçando o queixo, observando o mundo ao redor. Estendeu os braços como se quisesse abraçar o espaço ilimitado.
Numa das mãos, trazia a ferramenta, um bastão enru-gado de cuja extremidade destacava-se a lâmina curva. Era afiadíssima e não brilhava, pelo contrário, absor-via toda espécie de luz. Absorvia principalmente a Luz, aliada que era da Escuridão Eter-na.
E a caveira sorria e sorria sem parar, para sempre con-gelada, conforme havia sido decretado desde o primeiro instante, desde o primeiro nascimento, desde o primeiro sopro de vida nos lábios inertes de lama.
- Sou a Morte - murmurou no palco imaginário, chacoa-lhando os dentes, batendo os ossos, fazen-do girar a foice habilmente. A voz era áspera, fria e profunda, feita de todas as vozes que um dia se foram. E foram tantas... Vinha de muito longe no tempo em todas as épocas, no Agora, no Ontem, no Amanhã e na Eternida-de. Sempre. - Sou a Morte. Senhor absoluto de um império de sombras. Ouve-me? Responda! Sou o monarca da desolação, a majestade de todas as tristezas. Navego por toda parte, a fender as gélidas águas do Aqueronte, onipre-sente, tes-temunhando o surgimendo da dor, sua propagação e, tam-bém, o seu derradeiro fim. Sou a Morte. Não impor-ta o início, por mais dife-rente que seja, eu sou o único fim. A mim ninguém escapa, nem mesmo as montanhas, as estre-las, o Uni-ver-so e o pró-prio Tempo. Tudo em mim acaba, ou um dia termina-rá.
Então, a Morte soltou uma gargalhada insana.
Madeixas de escuridão esparramaram-se de seu corpo, em profusão.
Os andrajos farfalharam em meio a tempestade.
A lâmina descreveu um arco, faminta.
A figura tétrica pôs-se a caminhar pelo reino das som-bras.
O vendaval gritava.
Por fim, o tempo se congelou, amedrontado, aguardando.
Sempre.


2
NASCIMENTO

No hospital, o silêncio foi repentinamente que-brado pelo pranto do recém-nascido. Não precisou de tapa algum nas nádegas pequeninas.
Dr. Estevão, o obstetra, segurou com delicadeza a criança e sentiu de imediato a anormalidade. As rugas aprofundaram-se sobre a testa e ao redor dos olhos. Levou-a para os braços ansio-sos da mãe.
- É uma menina. Meus parabéns, dona Vera - cumprimentou mecanicamente o médico, sem jeito.
A mãe não lhe soube responder, feliz demais, tomando a criança em seu colo. Era a carinha de joelho mais linda do mundo, pelo menos para a mulher. Os olhinhos cerrados, o choro dolorido, o nariz arrebitado. Quando pôde falar enfim, Vera observou a intri-gada expressão do médico.
- O que foi, doutor?
- Eu... Eu... não sei como dizer.
- Fale. Tem alguma coisa errada com ela?
- Não percebeu?
Vera voltou sua atenção para a menina. Tocou o rostinho de maçã. Sim, agora reparou. A criança queimava de febre. Assus-tou-se.
- O que ela tem?
- Tudo correu bem - respondeu o obstetra, perple-xo. - Não sei o que está havendo.
- Precisa curá-la!
O bebê chorou mais alto e Vera procurou se controlar, embalando-a.
Dr. Estevão fez um sinal e, imediatamente, uma enfermei-ra levou a criança dos braços relutantes da mãe.
- Minha filha!
Mais tarde, o médico veio conversar com Vera. Sua expressão era ainda mais espantada, e, de ombros caídos, parecia haver envelhecido dez anos nas últimas horas. A testa encontra-va-se coberta de suor. Mordia os lábios inconscientemente, afli-to. Seu tom de voz foi grave.
- Fizemos todos os exames possíveis no decorrer de sua gravidez.
- O que ela tem?
- Não sei. Exceto que se continuar assim...
- Não! - chorou a mãe, afogando a alegria anteriormente sentida.
- Enfermeira, depressa!


3
VIDA

Nenhum dos presentes no hospital poderia perceber, natu-ralmente.
A Morte tocava as faces rosadas do recém-nascido, en-quanto o bebê era levado para outra ala do hospital. O movimento da mão ossuda era gentil, todavia, não havia gentileza alguma em seus efeitos. De dentro de si, brotava um nevoeiro de trevas, e ele se esparramava ao redor, frio, faminto, a reclamar a presa. A Morte sussurrou:
- Sou a Morte, pequenina sem nome. Quero-a para mim. Se pudesse me per-guntar sobre por que teria que ser você e tão cedo, en-quanto ao redor tantos aguardam por meu chamado em seus leitos de dor, eu respon-deria simplesmente: porque assim o desejo. Gos-tei de seu ar inde-fe-so, sua candura, sua meiguice. Somos ambos puros, você e eu. E, antes que a podridão de seu mundo de luz a corrom-pa, irei levá-la para o meu, cujo imaculado negror é eter-no e incorruptível.
- Não!
A Morte virou-se bruscamente, deixando a criança.
- Como? Quem...?
- Não poderá tê-la.
A febre baixou um pouco, um pouco apenas.
A Morte virou a cabeça em todas as direções.
- Quem é? Quem está aí? Como se atreve?
- Atrevendo.
Em meio ao deserto da escuridão produzida pela Morte, naquela dimensão onde, até o momento, somente a ela pertencia, surgiu uma luzinha. Uma estrela, assim como a primeira a cintilar no céu milhões de séculos atrás e a macular o crepúsculo da Eter-nidade. E ela aumentou de tamanho e intensidade até adquirir forma. Os contornos lembraram os de uma mulher. Era bela, alva, cabelos longos e cintilan-tes. Dela, a luminosida-de nascia e es-parramava-se, enfrentando a frieza das sombras.
A Morte, cobrindo as órbitas vazias com o braço livre, gritou irada:
- Quem é você afinal?
- Não me reconhece? Enfrentamo-nos tantas e tantas ve-zes... - A voz possuía o calor do primeiro raio de luz a devassar o horizonte numa manhã de prima-vera, o conforto das ondas mornas do Atlântico Sul a se desfazerem na praia, a esperança de muitos amanhãs ao lado da pessoa amada.
- Não lhe conheço. Por que deveria?
- Sou a Vida - respondeu com candura.
A Morte afastou-se, repugnada. Segurou sua foice com ambas as mãos descarnadas; braços erguidos, rígidos.
- Fora! Aqui não é o seu lugar.
- Pelo contrário, Morte. De todos os lugares, é aqui que eu me faço mais necessária.
A Morte tornou a se aproximar do bebê, cuja temperatura, nesse ínterim, abaixara mais um grau. Fora colocada numa caixa de vidro, porém este obstáculo nada significava para o espectro. Ergueu sua foice, ameaçado-ramente.
- Ela é minha. Minha!
- Ela quer viver.
- Não!
- Ela pertence à vida.
- Nunca. Por mais que a queira, não poderá salvá-la. Mesmo que adie seu fim para daqui a um ano, uma década, uma vida intei-ra, eu vencerei. Eu sempre venci você, Vida, pois sou mais forte, mais antigo. E eu desejo essa criança para mim agora. Não poderá salvá-la. Tenho a Eternidade a meu favor.
A Vida meneou a cabeça. Seu rosto era todo bondade, embora transmitisse também um laivo de tristeza. Tentou sorrir. Falou baixinho:
- Não é somente a ela que eu vim salvar.
- Não?
- É a você também.
Surpresa, a Morte refez-se logo em seguida. Ergueu-se altiva, e, atirando seu manto em farrapos para trás, riu das palavras pronun-ciadas pela Vida.
- Salvar-me? Enlouqueceu? Salvar-me de quê?
- De si própria.
- Ah, ah, ah! Enlouqueceu deveras - disse a voz de inúmeras vozes. - Sou a Morte. Eu não posso morrer. Regozije-se em sua insanidade porque eu, a Morte, paradoxalmente possuo "vida" eterna.
A Vida sorriu; o seu olhar, todavia, permaneceu entris-tecido.
Apesar de tudo, refletiu a Morte, era bom poder conver-sar com alguém, ainda que num confronto como esse, fazer pergun-tas e procurar respostas. Ela era louca, contudo, mesmo a loucura tinha sua finalidade, não tinha? Fitou os contornos delicados da Vida, o rosto de uma brancura ofuscante, a beleza singela de seus traços, a deli-cada poesia de seus gestos. Uma pena que estivessem em lados contrários, sim, muita pena.
- Eu te odeio - murmurou a Morte, incerta.
- Eu te amo - disse a Vida, ciente de sua verdade.
Atônita, o rosto de caveira não soube o que responder.


4
AMOR À VIDA

A Morte mirou o espectro luminoso, incrédula. Amá-la? Que espécie de demência era essa? Ninguém jamais a amara. Nem mesmo os suicidas a desejaram no fundo de suas infelizes almas. Sempre fora rejeitada. Sobre seus ombros havia o peso de milhões de desesperados ao longo de inúmeras gerações. Nunca sentira o afeto sincero, nem tampouco ouvira palavras de ternura.
Até esse momento.
E ela, a Vida, aproximou-se suavemente.
A Morte recuou. Pela primeira vez, teve dúvida. Ou seria medo?
Amor? Nunca.
Seria sempre temida e odiada. Seria sempre renegada, mantida a distância na mente dos homens, embora tão presente quanto a sombra que os acompanhavam. Era só. Desabafou:
- Afaste-se! Pelas dolorosas tormentas do reino de Hades, não sei o que é o amor. Se isso é uma brincadei-ra, pagará muito caro o insulto. Sou o que sou. É meu destino, Vida, e não poderá mudá-lo. Vá embora e deixe-me cumprir meu papel. Não o escolhi, todavia, ele existe e assim foi escrito. Vá!
- Eu te amo - repetiu, mais perto. A doçura de sua voz era hipnótica. O tecido luminescente afugentou fiapos de trevas. Os longos cabelos balançaram com lentidão. - Saberá o que é amar, assim como, agora, sabe no fundo de seu ser que é incapaz de me odiar de fato.
- Maldita, não lhe posso amar, não posso! Não compreen-de? É meu destino, fonte de meu poder e minha sina. Sou só!
A figura de luz balançou a cabeça. Seus dedos ondularam no vazio a reger uma orquestra invisível.
- Não mais.
- Fique longe de mim!
- Não tenha medo.
- Deixe-me em paz!
A foice sibilou, relâmpagos rasgaram o ar, todavia, no último instante a figura feminina desapareceu. Ressurgiu do outro lado, a mesma distância da personagem cadavérica. Não havia mágoa em seus olhos por causa do ataque, somente paz, afeto e uma firme determinação.
- Não resista.
- Destrui-la-ei se não partir.
- Ah, Morte, Morte... Pode alguém liquidar seu reflexo? Somos duas metades de uma unidade. Somos o dia e a noite, o Sol e a Lua, o princípio e o fim. Não me pode destruir, assim como não nos podemos sepa-rar.
- É o que veremos.
A Morte tentou novamente e, novamente, fracassou. Rangeu os dentes, completamente dominada pela fúria.
- Apareça. Onde se meteu?
- Estou aqui, Morte - sussurrou na nuca da caveira.
O senhor das sombras saltou, atacando em seguida. A Vida não rea-giu, limitou-se a se desfazer em neblina e flutuar feito vaga-lume para outro lugar. Ventos açoitaram as vestes maltrapilhas da Morte. Relâmpa-gos e trovões sacudiram aquela dimensão atemporal. Urrando de ódio, a Morte cresceu, atingindo um tamanho descomu-nal. As trevas emanaram por entre suas costelas em maior quantidade, abrindo-se feito asas de um agourento e gigantesco corvo.
- Maldita, mil vezes maldita! Apagarei sua chama com minhas trevas. Afogarei seu calor num oceano gelado pela agonia. Conhecerá a dor de uma maneira que ninguém nunca conheceu.
- Pobre Morte. Tão cheia de rancor e de solidão.
- Cale-se! Não desejo sua piedade.
- Que calor será capaz de derreter sua geleira interior?
- Gostaria realmente de saber? - indagou sinistramente.
- Sim.
Toda mágoa do mundo transpareceu na voz que era feita de um milhão de vozes. Emergiu distante e gutural, oriunda das pro-fundezas da terra, de inúmeras eras:
- Sua total destruição. Sim... Completa... Absoluta! Será minha suprema vitória. O término deste infindável duelo. A minha paz. Não somente o arrebatar de uma vida indefesa num mísero hospi-tal, ou mi-lhares de vidas perdidas numa guerra, mas a Vida, todas as vidas em um único e fulminante golpe. A vitória final sobre si. Total... Absoluta!
- Mentiroso. Por que insiste em se enganar? Você me ama.
- Miseravel!
A esteira de raios nada encontrou em seu caminho além do vácuo.
A Vida desdenhava da Morte, brincava com ela, ora sumin-do no vazio entre as eras, ora se aproximando tão perto que era possível sentir a fragrância morna de sua respiração em contraste com o bafejar glacial do mestre do sofrimento.
Frustrada, a Morte implorou:
- Vá embora!
- Jamais - disse a Vida, e, enfim, atreveu-se a tocar a face ossuda. Foi um toque cheio de ter-nura que desarmou totalmen-te seu adversário.
O corpo inteiro da Morte estremeceu como quê eletrificada. A foice escorregou de suas mãos. Quis dizer algo, mas não conseguiu. Todas as vozes se aquietaram dentro de si. A tempestade cedeu à calmaria. As trevas hesitaram. Havia tanta bele-za naquele olhar que a Morte, emocionada, tentou em vão desviar o rosto. Desejou fugir dali. Inclusive, devolveria a saúde para a recém-nascida se preciso fosse. Tarde demais. Sentiu o calor da mão frágil, a carícia singela, a tez macia e lumi-nosa, o suspiro dos cabelos de seda. Deu-se, então, conta da irônica verdade contida naquelas pala-vras. O impossível ganhou forma. Quisesse ou não, cus-tasse o quanto custasse a admitir, a Morte, finalmen-te, começou a amar a Vida.


5
GANGORRA

Dr. Estevão teria continuado de bom grado junto àquela mãe, tentando amenizar seu sofrimento. Sabia o que representava a perda de alguém. Sua própria esposa partira enquanto dava à luz, levando consigo não somente a si e ao bebê, mas a razão de ser do então jovem estudante de medicina. Não fosse o trabalho e a fa-culdade, talvez não tivesse conseguido superar. Sim, compreendia a dor daquela mulher e o choque de ter a felicidade subitamente arrancada. Pousou sua mão sobre a de Vera. Queria acalmá-la, porém, não era necessário. Vera entrara num estado de torpor, desligando-se da realidade, recusando-se a ver, apesar dos olhos abertos, estáticos, perdidos.
- Dona Vera?
Silêncio.
- Dona Vera?
Os olhos piscaram.
- Hein?
- Sou eu, dona Vera.
Ela não respondeu.
O médico ficou tentado a perguntar se ela estava bem. Uma frase automática e, dada as circunstâncias, estúpida. Conte-ve-se a tempo.
Repentinamente, uma das enfermeiras entrou no quarto.
- Doutor...
- Sim, Daniela?
- O bebê...
Os olhos piscaram repetidamente, buscando o foco.
Dr.Estevão observou a paciente e a enfermeira alternada-mente. Controlou-se novamente, tentado a perguntar: "O que hou-ve?", diante de Vera. Ao invés disso, falou:
- Estou indo. - E seguiu a jovem de branco a passos rápidos pelos corredores nem sempre silenciosos do hospital.
O olhar de dona Vera tornou a se perder em algum ponto muito além da parede rosada que tinha a poucos metros de si. Esperava pelo pior.
Médico e enfermeira aproximaram-se do bebê. Números amarelos brilhavam num painel eletrônico. Mostradores balouçava feito serpentes.
- Nunca vi isso acontecer - disse a enfermeira, diante da caixa de vidro. Indicou um aparelho ao lado. - Veja a tempera-tura da criança, doutor, e seus batimentos cardíacos.
O obstetra já estava examinando os dados antes da moça dizer a primeira palavra. Ele viu e, igualmente, mostrou-se incrédulo.
Os ritmos vitais do bebê iam e voltavam, iam e voltavam, como numa gangorra.


6
METAMORFOSES

Imediatamente, ocorreu a miraculosa transformação.
Carne nova passou a recobrir aqueles ossos carcomidos. Olhos incrédulos emergiram de dentro das órbitas vazias. Volumo-sos cabe-los brotaram de sua cabeça. Lábios esconderam o sinistro sorri-so. O esquele-to foi en-volvido por múscu-los rijos e pele jovem. Sangue foi bombeado por um coração antes inexistente. Do frio, emergiu o ca-lor. A escuridão cessou de nascer e, de dentro da Morte, surgiu uma auréola de luz. Admirou suas mãos e braços. Apalpou o peito e o abdômen. Inspirou profundamente. O tórax se expandiu, vibrante... vivo. Era inacreditável.
E seu olhar encontrou a Vida. Ela deitara-se num colchão etéreo. O corpo belo e frágil flutuava sobre um nevoeiro lumines-cente a ondular. Ela também emitia luz, uma luminosidade fraca, de um azul claro muito puro. Era vazio e matéria, névoa e corpo, desejo e inspiração.
- Venha - chamou a Vida num sussurro, oferecendo-lhe a mão.
Hesitante a princípio, a Morte roçou aquelas unhas bem cuidadas, os dedos finos e alvos da Vida. Fluídos mornos esparra-maram-se dela para ele. O fogo surgiu de seu ventre e a Morte deixou de ser tocada para tocar. Uma estranha fome, nunca alimen-tada, exigiu satisfação. Deitou-se também.
Na quietude da dimensão atemporal, trajes de luz se desfizeram em neblinas fosforescentes, andrajos se reduziram a retalhos disformes. Redemoinhos cuidaram de dispersá-los nas sombras. Corpos despidos, abraçados, uniram-se. Pernas se roçaram e, por fim, engalfinharam-se. Mãos descobriram relevos outrora intocados. Hálitos foram trans-formados numa só atmosfera. Maciez. Calor. Filetes de suor. Ruídos úmidos. Gemidos de uma alegria ilimitada alcançaram e passaram a acompanhar àquela harmonia rítmica.
E assim, depois de milhares de gerações, duas metades tor-naram-se o todo.
Houve Luz.
- Não é possível! - balbuciou a Morte em seu derradeiro momento.
- Tudo é possível.
E a Morte desabou, exausta. Sentiu como se houvesse alcan-çado o cume da maior das montanhas e, de lá do alto, desli-zado vertiginosamente abismo abaixo, aterrissando a salvo e completa-mente sugado.
- Não é possível - repetiu, mais calmo.
- Como se sente?
- Como... como se um fardo me fosse retirado dos ombros.
- Ah, meu amor.
- Amor?
- Sim, amor.
Corpos suados abraçaram-se gentilmente.
- A Vida amando a Morte?
- Não... A Vida trazendo vida para a Morte.
- Então, não sou mais a Morte.
- Não.
- Perdi minha foice e fui transformado.
- Sim.
- A Morte deixou de existir? Todos os homens, todos os seres tornaram-se imortais?
A luminosidade dela tornou-se momentaneamente mortiça. Beijou-o de leve antes de responder.
- Não. O equilíbrio não pode ser quebrado. A noite não poderá ser um eterno dia. A mesma Força que nos criou no início de todas as épocas cuidará para fazer de um fragmento de escuridão o novo embaixador das tristezas... E você terá que enfrentá-lo.
- Eu? Não... nós, minha amada. Minha... Vida.
Ela não respondeu. Limitou-se a sorrir e a ocultar seu rosto pequenino e luminoso no ombro dele.
A Morte abraçou-a com firmeza. Pela primeira vez em sua... vida, a Morte era feliz.
Mas quão cruel era o destino a manipular a vida, todas as vidas e, inclusive, a própria Morte.
Súbita e inesperadamente, a tragédia se abateu sobre o antigo imperador das tragédias.
Dos delicados lábios da Vida partiu um novo gemido. Desta feita, não foi de alegria.
A Morte estacou, apreensiva.
- O que houve?
- Ah... Eu sabia. Nada acontece sem uma compensação. Só não imaginei que seria tão cedo...
- Como assim? O que está sentindo?
- O equilíbrio, meu amor, o equilíbrio...
Da mesma maneira que a Morte rejuvenesceu, o processo inverso passou a tomar conta da Vida. Nos braços da Morte, o lindo rosto murchou feito folhas caídas. O corpo sem for-ças tentou se levan-tar, porém, tombou de volta ao leito de luz, emagrecendo com assustadora rapidez.
A Morte gritou:
- Não! Não você. Não me deixe.
- Ah, amor.
- Não vá, não agora, que nos encontramos de fato.
- O equilíbrio...
- Dane-se o maldito equilíbrio! Dane-se a Força que nos criou. O universo que desmorone da balança. Eu a quero. Eu a amo!
- Estaremos sempre juntos - murmuraram os lábios transfor-mados em uva passa.
- Como? Você está perecendo, Vida!
- Não sofra.
Era um pedido impossível de ser atendido. Olhos que jamais haviam vertido uma única lágrima pelos muitos sofrimentos que infligiram, agora se encontravam úmidos. E ele, a Morte, soube, de dentro de si para si, que sempre se iludira. Achava que apreciava seu ofício, seu poder sobre o destino dos outros, o medo que despertava em todas as criaturas. Sua influência que fazia certas pessoas odiarem e matarem. Estupidez. Enganara-se em todos os milênios a fim de tornar suportável o peso da culpa e da solidão. E agora, quando por fim sentira-se acordar para o amor, ele lhe era arrancado, cortado pela raiz. Havia uma justiça poé-tica nisso, embora não houvesse poesia em seus efeitos.
- Não sofra... - disse novamente a Vida. Sua voz era fraca, difícil de escutar. - Não sofra.
- Não morra, minha amada, por favor.
Ela sorriu.
- Não morrerei. Enquan-to houver vida, haverá Vida.
- Não compreendo.
- Seja feliz.
- Não me deixe!
- Não deixarei.
Esboçou um último sorriso. Seu olhar manteve-se insis-tentemente vivo até o fim, enquanto mergulhavam para dentro das órbi-tas. Havia brandura neles, a candura de alguém que, enfim, cumprira sua missão e encontrara a paz. Permaneceram fixos no rosto da Morte, agora viçoso, transmi-tiram seu afeto até, finalmente, apagarem-se.
- Não! - urrou a Morte. - Não!
De nada valeram seus lamentos que duraram muito, muito tempo. Inúmeras lágrimas escorreram por suas faces em veios quen-tes e brilhantes.
- Não... Não... Não... - balbuciou inúmeras vezes.
As lágrimas secaram.
E a Morte, transfigurada em Vida, deposi-tou o corpo flácido de ossos inertes sobre o chão. Acariciou-lhe os cabelos outrora cheios de luz, cujas madeixas desprendiam-se como pétalas de uma flor.
- Eu te amo - murmurou com amargura. Encostou sua testa à testa descarnada. - Sempre irei amá-la, meu amor, minha vida.
Por muitos séculos, em inúmeros confrontos, a Vida tentara lhe ensinar uma lição. A Morte havia se recu-sado a aprender. Enfim, no último mo-mento, a-prendeu. Volta-ra-se tanto para o término das coisas que jamais atentara para a pureza do início e a beleza do durante. Para a Vida era tarde demais, só lhe restara o depois. Entretan-to, jurou a Morte, faria o possível para sanar o erro cometi-do. Como?
- Festejando o amor à Vida - sussurrou.
Sem que pessoa alguma visse, a Morte, tornada Vida, abandonou o corpo sem luz, o hospital e a foice no chão, esquecida.


7
RENASCIMENTO

Imaginando o pior, o obstetra atendeu o pedido da paci-ente e levou-lhe o bebê. Se a criança tinha que morrer, vitimada por aquele insólito quadro clínico, que fosse nos braços da mãe. Que ela a amasse tanto quanto ele amara a esposa e o filho não nascido.
- Dr. Estevão?
- Pois não, dona Vera.
- É impressão minha ou minha filha está melhorando?
"Pobre mulher", pensou o médico. Por consideração, apa-nhou o termômetro do bolso e foi medir a temperatura da criança. Nem bem tocou-a, arregalou os olhos sem acreditar. Colo-cou o termômetro e, este, somente confirmou que não perdera a razão. Tentou de novo e de novamente ficou espantado.
- Não é possível. É verdade. Não sei dizer como e nem porque. A temperatura diminuiu, estabilizou. Acho... Ela está melhorando.
A enfermeira bateu palmas, sorrindo. Perguntou a jovem mãe:
- Que nome dará a ela?
Dona Vera pensou, pensou, enfim, seu rosto se iluminou:
- Esperança.
- Muito apropriado - disse Dr. Estevão. Citou o provérbio popular: - "Enquanto há vida, há esperança".
Como se tivesse entendido a conversa, os olhos pequeni-nos do bebê se abriram. De seus lábios na carinha-de-joelho emergiu um esboço de sor-riso.
Não fosse pela luz vinda da janela, todos teriam perce-bido a tênue claridade de um azul muito puro emanada da menina. Breve, apagou-se. Porém, o sorriso permaneceu por longo, longo tempo. E, então, se tivessem percebido, aquelas pessoas saberiam.
Enquanto houvesse vida, haveria Vida.


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