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Assassinato sem Crime (R02)


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Aquela manhã acordei com uma sensação sarcástica, uma dor no coração, um frio na barriga.
Não sei o que era, de repente a notícia, a morte de um conhecido, quase primo. O motivo, não sei, mas aquilo mexeu comigo, bateu bem fundo na alma , como se fosse eu um assassino, ou culpado pela sua morte.
A consciência começou a perturbar-me, como assim, morreu , qual a causa da morte, precisava saber, me arriscar a qualquer custo.Por que me arriscar, uma palavra meio infeliz de ser usada , carrega em seu interior a cumplicidade.
Fui ao velório, não sei se pela amizade que tinha ou só para vasculhar. Lá estava a mãe, uma senhora , pele clara , cabelos grisalhos, mostrando o seu tempo de vida, encaracolados, era razoavelmente gorda ou por ser baixa aparentava a obesidade. Chorava muito, ao me ver seu olhar me tocou fundo, foi como se sentisse o impacto de uma faca em meu corpo.
Perto do caixão o pai, olhos vermelhos, expressão de quem já sofreu bastante na vida, também seu olhar foi como uma apunhalada no peito.
Não sabia o porquê daqueles olhares todos para mim, já começava a me sentir mal num ambiente onde minha presença era indesejada. O mais correto, talvez, era sair , mas ainda não sabia a causa da morte, e naquela situação era melhor nem saber.
Fiquei mais um pouco apesar dos olhares dirigidos a mim, mas o destino não me desamparou, eu tinha que saber a causa ce um jeito ou de outro, foi quando escutei "a inveja mata". Aquilo foi pior que um espancamento, algo me afetou, eu precisava sair de lá , respirar ar puro, quem sabe por os pensamentos no lugar.
Minha cabeça girava , doía tanto, parecia que ia estourar,aquela frase me tocava demais. Por que uma frase , uma única e exclusiva frase me tocou tanto.
Eu não tinha inveja dele , ou será que tinha , não sei as coisas estavam confusas. Por que não tive coragem de olhá-lo no caixão, vergonha , mas vergonha do que, as coisas estavam confusas , as idéias se emaranhavam em minha cabeça.
Decidi voltar para casa, não tinha condições de trabalhar, estava suando frio , estava ficando nervoso, em casa pensaria melhor.
Meu Deus , eu não sou assassino, afinal nem crime houve... sobressaltei, bateram à porta , talvez a polícia , era o carteiro, mas e se fosse a polícia , não devia nada , ou será que devia , acho que a loucura tomava conta de mim.
Já anoitecia e a frase , maldita frase, ainda latejava em minha cabeça , me enlouquecia, o silêncio se fazia ouvir, o silêncio é bom, mas às vezes se torna seu carrasco.
Fui me deitarno intuito de acordar um novo homem para recomeçar um novo dia. Finalmente dormi. Sonhei com a frase , com os olhares , com o rosto dele no caixão a me fitar, pedindo por vingança, me amaldiçoando, acordei num pulo, não podia ser, estava ficando louco, "a inveja não mata, deixa louco", o quê?... admitir que tenho inveja, não, ou será que é melhor, sim , para fugir do suplício admita o erro, para ser absolvido admita o pecado e o arrependimento e será liberto. Tudo já clareava. Tudo já entrava nos eixos.
A redenção, a vida , um novo amanhecer, dormi tranquilo.


Alexandre Brussolo (30/11/1994)



 
   
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