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AMOR ATO UM


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A luva plástica não abraça o coração
mas pode afetar a certeza da palma oculta.
Aceite assim meu bico de ave em teu estômago,
a eminência do pico do amor e a resignação.

Você não está morto,
teu ser encosta em mim teus ais,
teu sorriso se espalha por meus anos passados
e assim permaneço, pois sou beirada e cais.

Teus olhos esparsos dizem adeus
mas o corte não se despede,
pupilas e lábios anunciam serem meus.

Sons da minha madrugada guia batem,
ao comando deste início que tudo prossigam,
para que beijos feridos sempre compensem.


Marília ainda era estagiária em enfermagem quando um rapaz esfaqueado e inconsciente entrou na emergência do Hospital Santa Luzia em Fortaleza. O médico examinou a vítima, o corte fora aberto na altura do estômago; tomou alguns cuidados e pediu à Marília as seguintes providências: colocar a luva cirúrgica e introduzir lentamente a sua mão direita dentro do ferimento do rapaz. Marília, julgando iniciar algum tratamento, obedeceu ao homem, introduziu lentamente a sua mão no estômago da vítima, mas quando estava no meio do caminho, dentro do corte, sentiu, devagar, as últimas batidas do coração do paciente. Marília puxou a mão e gritou. Soltou um grito enorme e ouviu a risada do médico titular, por coincidência também o seu professor na Faculdade de Enfermagem.

O mestre ordenara a providência da introdução da mão no abdômen do rapaz esfaqueado, não como uma tentativa de salvação do paciente, já condenado, mas para Marília sair do estágio, tornar-se uma profissional enfermeira que conhece e sabe relativizar a hora da morte. Enfermeiras devem adquirir a noção do efêmero.

Marília também começou a chorar. Chorou muito, junto com os familiares do rapaz, que morreu logo depois. Marília chorou porque percebeu também: sua mão dentro dos restos mortais não tinha sido apenas uma aula prática. Marília se sentiu unida ao corpo do jovem e tudo - o ferimento, a luva cirúrgica, o coração do paciente, o coração de Marília - pareceu uma fileira de dominós em queda, retida ali entre seus dedos.

Marília lembrou deste fato como a ocorrência mais marcante de uma carreira de cinquenta anos. Tão marcante para confessar a sua única irmã:
- Eu nunca me casei, mas algo em mim continua tão ligado ao tal homem quanto naquele dia.
Grandes são as coincidências neste mundo. Sábado, dia 23, Marília faleceu por causa de uma úlcera.
Marília tinha setenta anos. Deixa uma irmã, também enfermeira, e um sobrinho.
Apenas a irmã entendeu o pretexto amoroso da úlcera de Marília.



DO LIVRO: AMOR POR FORÇA DA LEMBRANÇA

 
   
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Votos Poesia Leitura Publicação
0 MARCAS COLORIDAS 5 20/03/2019
0 SAUDADE ATO DEZESSEIS 4 20/03/2019
0 PARA OUTRO IDOSO 4 19/03/2019
0 A MÚMIA 7 18/03/2019
0 SAUDADE ATO QUINZE 15 10/03/2019
0 REMATE FILOSÓFICO 26 02/03/2019
0 O MORTO APAIXONADO 14 01/03/2019
0 SONHOS DO PASSAGEIRO XIS 9 01/03/2019
0 COMBINAÇÕES 14 27/02/2019
0 CHUVAS NO JARDIM-BOTÂNICO 15 24/02/2019
0 DUAS HISTÓRIAS 12 23/02/2019
0 FELINAS NA CHUVA 13 23/02/2019
0 MOMENTOS DE AMOR 17 20/02/2019
0 TRÊS OLHARES POSSÍVEIS 38 09/02/2019
0 AMOR ATO OITO 35 04/02/2019
0 AMOR ATO UM 39 31/01/2019
0 A FORMIGA ALHEIA 34 28/01/2019
0 TUBARÕES NÃO PRECISAM DE SANGUE 27 27/01/2019
0 CHUVA INCOMPREENSÍVEL EM SÃO PAULO 47 18/01/2019
0 A DESCONSTRUÇÃO 26 18/01/2019
0 UNI VERSOS POSSÍVEIS 40 04/01/2019
0 BISCOITOS VIRTUAIS 43 02/01/2019
0 HORA LÍQUIDA 35 30/12/2018
0 CEMITÉRIO DOS AFLITOS 24 29/12/2018
0 FUTEBOL-REDBOL 41 23/12/2018
0 A ALMA SURDA 71 06/12/2018
0 ALMA SURDA 64 04/12/2018
0 AMOR ATO ONZE 52 02/12/2018
0 SAUDADE ATO DEZ 34 02/12/2018
0 AMOR ATO DEZ 40 02/12/2018