Efuturo: NO SUPERMERCADO

NO SUPERMERCADO

A mulher, com a filha pequena no carrinho,
escolhe latas no supermercado,
quando passa pelo homem.
Foram anos de estudo
suspeitas e dúvidas,
para chegarem a presença súbita
de um olhar recíproco,
sem sequelas.
A mulher não percebe
o denso contato que provou,
mas já está longe
de qualquer alcance;
está livre para seguir,
escolher o vinagre
que cortará o gosto da carne do jantar;
comprar a gilete do marido
que cortará a sua carne branca;
comer o doce no café
sem conhecer bem
a cria daquele contato visual;
chamam “laço oculto”.

O laço oculto do estímulo
alisou o bom senso da mulher,
sem se deixar notar
e prontamente se desfez em um transe
que penetrou as compras.

O laço também se rompeu no homem.
Havia nele a inocência funcional do brusco.

E mesmo assim,
carrinhos vazios lotavam os corredores.

Do livro: Adversos e outros momentos