ROBERTO SCHIMA

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A ÁRVORE QUE QUERIA VOAR

A ARVORE QUE QUERIA VOAR

Roberto Schima

- Pronto, querida, aqui está o seu almoço.
- Obrigada, amor. Parece que está delicioso.
- Ah, está sim! Eu andei dando umas bicadinhas...
- Ora... seu maroto!
A jovem esposa provou com gestos delicados, quase tea-trais, o alimento que lhe era oferecido. Um ar crítico de experi-mentada mestre-cuca estampou-se em seu rosto. Seus grandes olhos castanhos se iluminaram.
- Puxa... - foi o que conseguiu dizer.
- Então, que tal? - indagou ansioso o companheiro.
- ... está ótimo!
- Jura?
- Juro - respondeu, sincera. - Da última vez não estava tão bom. As minhocas estavam amargas por causa da terra que ti-nham comido. Mas estes besouros são simplesmente fantásticos!
Sr.Gruc, um pardal gorducho e alegre, eriçou as penas, acanhado.
- Ora, não foi nada.
Casaram-se fazia dois meses, e a esposa, Cristal - uma respeitável dama do Clube dos Pássaros -, aceitara este jovem plebeu de modos rudes, mas muito carinhoso e sensível. Agora, ela passava os dias chocando dois ovinhos que eram o orgulho do futu-ro papai.
Gruc construíra o ninho numa segura reentrância de um jovem abacateiro. Trançara palhas e finos gravetos com a habili-dade de um experimentado artesão. Depois, forrara tudo com plumas e pedaços de algodão apanhados numa fazenda.
Quando vieram os ovos, Gruc ficara simplesmente insupor-tável. Voava a todo instante, de galho em galho e de árvore em árvore. Seus gritinhos de contentamento cortavam os ares a tal ponto que cristal tivera de repreendê-lo:
- Pare com isso, Gruc. Parece moleque!
- Oras... é que estou tão feliz! - respondera, dando uma pirueta no ar.
- Mas se você continuar com toda essa barulheira pode atrair a atenção de algum gato. E você bem sabe como eles são danados em querer nos pegar.
- Tá bem, tá bem. - E outra pirueta.
A reentrância no abacateiro era bem profunda. Devia ter sido o ninho inacabado de algum pica-pau. Para Gruc e Cristal fora um ótimo achado. Ventasse ou chovesse, eles mal percebiam. Era um cantinho quente e aconchegante.
Ao redor, os raios solares incidiam sobre as árvores, os arbustos e a vegetação rasteira. Havia o perfume de flores, de frutos amadurecendo, de orvalho transformado em vapor.
Pouco depois do almoço, Gruc e Cristal ficaram conver-sando. Isso ajudava a máquina digestiva a realizar o milagre da transformação, ao mesmo tempo em que uma névoa de sonolência ia, pouco a pouco, se adensando. Gruc e Cristal gostavam desses mo-mentos. Barriguinhas cheias, um ao lado do outro, a vida correndo livremente lá fora.
- Ah, Gruc querido, vamos colocar nossos filhos na esco-la de Currupaca? É aquela da Árvore Azul. Ela é ótima em gramáti-ca e lingüística.
Gruc sorriu.
- É... mas também é uma tremenda mexeriqueira. Fica tagarelando sem parar da vida alheia. Virgem Santíssima, já pen-sou se os garotos acabam pegando a mania dela? Deus me livre! Você não se lembra da filha do Zé Bode? Era tão tímida e quieti-nha... Foi só ficar algumas semanas assistindo às aulas daquela matraca emplumada que começou a soltar seus "més" por todos os cantos da mata. Se tinha um casal namorando, lá ia ela contar em altos brados para quem quisesse ouvir. Se tinha duas senhoras fofocando, lá ia ela fazer fofoca das fofoqueiras. Acabou azucri-nando tanto, mas tanto, que Zé Bode, muito zangado, deu-lhe uma boa chifrada no traseiro. O "mé" que ela soltou valeu para a vida toda. Não, definitivamente, nada de Currupaca.
- Mas então, quem?
- Eu estive pensando... Acho que o Tirugo, o velho tar-tarugo da Lagoa da Meditação, seria a melhor escolha.
- O quê? Aquele velho gagá?
- Ele não é gagá.
- Mas, querido, ele passa a maior parte do tempo entoca-do na própria carapaça. Meditando é o que diz, dormindo é o que penso. Suas aulas devem ser muito monótonas, tão dinâmicas quanto sua velocidade... Antes nossos filhos tagarelando pela mata do que dormindo em cada copa de árvore a mercê dos gatos.
Cristal se ajeitou no ninho, balançando as ancas rechon-chudas. Sua plumagem castanha e branca aquecendo as sementes de uma nova geração. Uma borboleta alaranjada passou perto e pareceu escrever felicitações no ar sem vento. Ao longe, o Sol aqueceu os campos e a vegetação ondulou como um oceano amarelo esverdeado.
- Está enganada - retrucou Gruc, pousado na abertura do ninho. - Tirugo é um grande sábio. Parece que fica dormindo, porém na verdade sua atividade cerebral é tão intensa quando o cavar de um túnel por um tatu. Ele é um filósofo, um contador de histórias, um arquivo de conhecimentos. Ele é capaz de nos mos-trar o fascínio do desabrochar de uma flor ou a beleza do reflexo nas águas tranqüilas de um lago. Só ele poderia fazer nossos filhos compreenderem a linguagem da chuva...
Cristal balançou a cabeça.
- Gruc, você é um sonhador incorrigível.
Subitamente, mal Cristal concluiu este comentário, ambos sentiram algo. Um arrepio percorreu instantaneamente seus peque-nos corpos e eles se aproximaram mais um do outro, buscando, instintivamente, a segurança.
Algo acontecera.
Havia alguma coisa no ar. Ao redor, os ruídos cessaram por completo. Nenhum zumbido de inseto ou piar de pássaros. Nada. Mesmo as folhas davam a sensação de terem deixado de se levar com a brisa.
Com os olhos muito abertos e assustados, Gruc olhou ao redor. Tudo parecia o mesmo, entretanto, ele sentia, ele sabia, algo acontecera.
Aconteceu novamente. Desta vez, ambos perceberam. Algo, um ruído, um murmúrio, envolveu-os como uma luva, vindo de mansi-nho para em seguida sumir tão rapidamente como havia surgido.
- Que será isso? - perguntou Cristal, apavorada.
- Psiu! Silêncio! - advertiu Gruc.
- Será algum animal feroz?
- Quieta!
Ficaram à escuta. Passado algum tempo, sentiram a brisa fresca. As folhas voltaram a balançar. Uma abelha voltou a zum-bir, colhendo o néctar de pequenas flores brancas num arbusto próximo. Um pássaro, depois outro e outro passaram a cantar para o Sol. Tudo estava como antes... ou quase.
- Seja o que for, agora já se foi - disse Gruc.
- Mas o que será que era? Soou tão baixinho e, no entan-to, tão forte.
- Não sei, Cris, nem faço idéia.
- Depois, aquele silêncio, aquela espera de que algo descomunal caísse sobre tudo. O que poderia ser? Sinto como se uma mão fria houvesse passado diretamente sobre minha pele. Veja, querido, ainda estou tremendo.
Gruc achegou-se mais a ela e a envolveu, protetor, com suas asinhas miúdas. Seu pequeno bico cônico alisou carinhosamen-te o de Cristal, de um lado a outro.
- Calma, amor. O que quer que tenha sido, foi-se embora.
Ficaram observando as sombras se alongarem vagarosamen-te. Apesar de, um tanto inconscientemente, tentarem ficar em vigília, as pálpebras começaram a pesar, pesar, pesar. E assim, abraçados, mergulharam no profundo abismo do sono.
Lá fora, no leste, a manta escura da noite foi surgindo, foi nascendo no horizonte como uma criatura saída de profundas cavernas, e foi cobrindo, vagarosamente, toda a mata. No oeste, o Sol moribundo agonizava, tingindo o perfil dos vales com uma áurea cor de sangue. As criaturas da mata se recolhiam após mais um dia de trabalho. Garças retornavam aos seus enormes ninhos nas árvores, formigas voltavam ao formigueiro com as últimas coletas, cobras se refugiavam sob os velhos troncos e tocas abandonadas, cães do mato protegiam seus filhotes com o calor do próprio cor-po.
Mas existiam criaturas que faziam da noite uma compa-nheira e a ela iam de encontro assim que o dia terminava.
Um jovem morcego abriu preguiçosamente suas asas mar-rons. Os dedos finos e esqueléticos distenderam-se, revelando a membrana interdigital onde finas veias se cruzavam. Suas mãos, transformadas em asas, agarraram o ar em grandes conchas e ele mergulhou nas trevas, emitindo um gritinho agudo de alegria.
Em outro canto, uma velha coruja de olhos imensos como faróis, espreitou por entre as folhagens. Sacudiu as penas, ex-pulsando o estupor do sono. Refletiu calmamente sobre o que a noite lhe traria: um ratinho suculento ou uma avezinha distraída. Saboreou tais pensamentos e, então, partiu num vôo silencioso de busca e ataque.
Vaga-lumes testaram suas frágeis luzes e foram caçar namoradas.
Um roedor noturno espiou desconfiado, olhando e farejan-do. Quando achou estar em segurança, saiu a cata de frutas e sementes.
Assim, os ruídos das criaturas da noite ecoaram pelo vale. Não eram tão intensos quanto ao das criaturas diurnas, mas a escuridão parecia ampliá-los e envolvê-los no véu mágico do mistério.
Ela gritou.
Era de madrugada quando Gruc, sobressaltado, acordou. Estava tendo um sonho esquisito no qual todas as criaturas haviam se congelado durante uma fria tempestade e, apesar de continuarem vivas, estavam condenadas para sempre à imobilidade. Virando-se para encarar Cristal, encontrou-a de olhos arregalados, vidrados, o corpo tenso e estático. Por instantes, não soube diferenciar o sonho da realidade.
- Cris, o que houve? Por que gritou? Diga!
Gruc a sacudiu. Seu corpo estava frio, a respiração profunda. Aflito, sacudiu-a com mais força.
- Vamos, Cris, diga-me o que está acontecendo!
O corpo de Cristal começou a tremer. Gruc sentiu-se melhor ao perceber que o calor lhe retornava e a respiração se mostrou descompassada.
- Cris - disse baixinho -, está melhor?
Piscando muito ela balbuciou:
- Gruc... o que está acontecendo?
Ele olhou-a inquisitivo.
- Ora, eu é que gostaria de saber. Primeiro foi aquele estranho som e silêncio durante a tarde; e, agora, você gritando a plenos pulmões na madrugada. Por quê?
- Gruc, acho melhor irmos embora daqui.
- Embora? O que está dizendo? Embora para aonde? Por quê?
- Não sei, para qualquer lugar, porém longe daqui. Por favor.
- Escute, amor, estou ficando cada vez mais confuso. Explique-me desde o início o que levou você a gritar daquele jeito.
Cristal piscou, seus olhos estavam úmidos; sua garganta, seca.
- Querido, eu acho que este ninho é mal-assombrado.
- Mal-assombrado? Depois de todo o trabalho que tivemos, construindo, passando dias arranjando palha, algodão, plumas, você vem dizer que ele é mal-assombrado? Está certo que ele não é o mais lindo do mundo, mas também não precisa...
Cristal interrompeu-o.
- Por favor, Gruc, não brinque e deixe-me explicar.
- Está bem, querida, desculpe-me.
- Lembra-se daquele estranho ruído, quase inaudível, de hoje à tarde? Nunca tinha presenciado algo assim. Depois, aquele silêncio igualmente assustador. Pensei comigo mesma: "O que será que foi? Será alguma criatura de fora penetrando em nosso terri-tório?" Porém, como nada mais aconteceu, pus de lado essa idéia.
"Apesar de haver dormido rapidamente, o ocorrido deve ter me deixado com o sono leve. Foi assim que, minutos depois de haver dormido, fui desperta com o som do farfalhar de asas. Um morcego provavelmente. Depois, ouvi o piar de uma coruja.
"Estava quase dormindo outra vez, quando aquele som estranho surgiu. Querido, fiquei petrificada. A noite estava praticamente silenciosa. Aquele som surgiu, então, com uma niti-dez impressionante. E tão próximo!
"Oh, céus, nunca vou esquecê-lo! Soou como um lamento, um choro, vindo das profundezas da Terra. E sabe o que me levou a gritar daquele jeito?"
- Não. Diga-me.
- Esse lamento não vinha de fora para dentro, não vinha da floresta. Isso eu suportaria. Gritei porque constatei que esse lamento, esse som sepulcral, vinha de nossa própria árvore!
Gruc ficou meditativo. O que acabara de ouvir fugia de sua compreensão. Se Cristal houvesse escutado um rugido de dentro do negrume da noite, ele poderia lhe explicar... mas isso! E ele sabia que era verdade, algo em seu íntimo dizia ser-lhe inútil encontrar qualquer outra resposta.
Foi aí que ele também ouviu.
O som foi crescendo mansamente, vindo do silêncio. Foi crescendo, crescendo, até tornar-se um lamento, que ecoou em seus ouvidos como um protesto dos mortos por estarem mortos. Desta vez ambos gritaram.
Passaram o resto da noite sem dormir, os olhos vidrados; um abraçado ao outro como se o calor do companheiro pudesse pro-tegê-lo, pudesse calar os lamentos que continuaram até o raiar do dia. Suas gargantas estavam secas e doloridas. E a árvore, outro-ra tão reconfortante, esmagava-os num abraço. Suas paredes vibra-vam a cada novo lamento. Os minutos passaram em desesperadora lentidão.
Como a lendária Fênix, o Sol ressurgiu das cinzas, afu-gentando a noite para o seu abismo profundo. O ar cheirava a terra molhada, e o orvalho salpicado nas folhas brilhou como miríada de cristais. Abelhas esvoaçaram na fresca manhã. Flores desabrocharam, exalando seu perfume, convidando as abelhas a um encontro furtivo. Parecia um lindo amanhecer de primavera como tantos outros que já houvera e que haveria no futuro. Todavia, não era.
As criaturas da mata que não presenciaram os lamentos do sombrio abacateiro e os gritos de horror atravessando a noite, ficaram sabendo dos mesmos através de boatos. As notícias se espalharam por uma vasta área.
Os animais que faziam dos arredores seu caminho habitu-al, procuraram evitá-lo. Os que moravam próximos discutiam se deveriam ou não se mudar. Vários olhavam a distância para a árvo-re assombrada. Suas grandes folhas balançavam na brisa fresca, refletindo os raios do Sol. Líquens cresciam em seu tronco escuro e rugoso.
Gruc, antes mesmo que o Sol surgisse, saíra do ninho e voava a vários pontos da mata, tentando encontrar um novo local para o seu ninho. Sentia-se cansado, os olhos avermelhados, o corpo dolorido. Muito a contragosto, deixara Cristal e os ovos no oco do abacateiro. De início, pedira que ela também saísse na busca, entretanto, ela se recusara. Apesar do medo que estava sentindo, preferira ficar para tomar conta dos ovos. Temia pela segurança deles mais do que a dela própria.
Em sua mente, Gruc já previa que a mudança não se pro-cessaria nesse dia. Pelo menos mais uma noite teriam de passar naquele lugar. "Não é a toa que o pica-pau que cavou o buraco tenha ido embora sem terminá-lo", pensou. "Imagino o susto que levou ao ouvir os gemidos..."
Sua mente se ocupou de cálculos matemáticos sobre o tempo que levaria até achar um novo lugar, até transportar as partes do ninho de um lugar para o outro, e o tempo de montá-lo novamente. Não, definitivamente, não daria tempo. Mas havia um problema mais grave: como transportar os ovos? Eram relativamente grandes e muito lisos para que suas pequenas garras desajeitadas pudessem carregá-los sem deixá-los cair. Mesmo que conseguisse, temia pela ausência do calor de Cristal. Isso poderia interromper seu chocar.
Sentia-se desorientado. Pensou em pedir ajuda a um maca-co. Este, com suas mãos enormes, quentes e hábeis poderia facil-mente transportar os ovos em segurança. Entretanto, não confiava em macaco algum. Eram traiçoeiros e poderiam devorá-los.
Voou sobre a Árvore Azul, assim chamada pela sua cor predominante, causada por milhares de flores pequeninas envolven-do sua copa. Exalava um forte perfume adocicado que fluía no ar ao sabor dos ventos, ora sentido como um aproximar de primavera, ora envolvendo como se toda a primavera lhe fosse atirada ao rosto. Insetos de todas as espécies disputavam o precioso néctar. Eram tantos que, vistos de longe, aparentavam fazer parte da árvore, como se esta fosse um ser fantástico, caleidoscópico. Borboletas de todas as cores e formatos, movendo-se contínua e graciosamente, emprestavam-lhe a beleza do arco-íris.
Gruc pensou intimamente como é que Currupaca conseguia viver no meio daquela algazarra. Só o odor das flores o deixou enjoado. Notou que ela não se encontrava por perto, porém não se surpreendeu. Com certeza, devia estar reunida com outras matra-cas, falando da incrível árvore gemedora. "Queria poder aprisio-ná-la na 'Árvore dos Lamentos' por pelo menos uma noite. Aposto como isso amansaria sua língua para sempre."
Os animais costumavam batizar os lugares de acordo com sua aparência ou uma propriedade que a caracterizasse. Um mesmo lugar podia ser chamado por diversos nomes simultaneamente ou conforme as estações do ano ou de acordo com o passar dos anos. Gruc sobrevoou lugares como o Vale das Serpentes, a Campina do Trigo (ou Terra Amarela Ondulante), a Figueira dos Tucanos, o Rio Borbulhante (ou Rio das Pedras Verdes, ou Rio de Prata). Em ne-nhum encontrou um local onde pudesse fazer seu ninho. Os locais propícios já estavam ocupados por outros casais, e as opções que restavam careciam de segurança e conforto, antes proporcionada pela Árvore dos Lamentos.
Mal tinha forças para bater as asas, quando retornou ao ninho, levando alimento para Cristal.
- Coma, amor, são pedaços de biscoito que algum humano deixou cair na orla da mata. Coma, vai fazer bem.
- Não sinto fome, Gruc. Só quero sair daqui.
- Mas você precisa se alimentar - insistiu. - De que irá nos ajudar se você ficar fraca e doente? Praticamente não dormi-mos a noite passada e nossos nervos estão à flor da pele. Mas nem por isso vamos nos entregar assim tão facilmente. Haveremos de encontrar uma solução.
- Qual? - perguntou aflita. - Você procurou a manhã toda um novo lugar para morarmos, entretanto, nada encontrou. O dia todo a Árvore dos Lamentos permaneceu em silêncio. É como se estivesse à espreita, à espera. É como se estivesse vigiando nossos movimentos, nossa respiração, mergulhando fundo até nossa alma. Fiquei todo esse tempo quietinha. Lá fora, o dia tem estado tão lindo, todavia, tenho a impressão de que o Sol se recusa a entrar aqui dentro. Reparou como é escuro? Antes eu nem havia notado. E o tronco é tão frio...
Cristal olhava para o céu azul; falava muito baixo, Gruc tinha de curvar-se para poder ouvi-la. As nuvens moviam-se lenta-mente, vez ou outra cobrindo o Sol, interrompendo os raios de luz que desciam em diagonal por entre a densa folhagem.
Gruc teria de sair logo para continuar sua busca. Então, usou seu mais poderoso argumento:
- Cris, você precisa comer para o bem de nossos filhos. O que será deles se você não tiver forças sequer para emitir um grito de socorro? Hein? Responda-me.
- Está bem... eu vou comer... meu belo e maravilhoso chantagista - disse, esboçando um sorriso. - Sabe que eu te amo?
- É mesmo? Puxa se você não dissesse, eu nunca desconfi-aria.
Gruc se sentiu feliz e aliviado. Com o seu bico pegou um pedacinho de biscoito e o deu a Cristal. Uma troca furtiva de olhares, uma áurea de ternura emanando de cada um, fundindo-se, tornando-se um só.
Gruc se lembrava de como a conhecera. Ele, um brincalhão extrovertido, não pensando em mais nada além da felicidade por estar vivo. Ela, a mais linda entre os pardais, herdeira de uma velha linhagem de pardais cantores. Lembrava-se de quando a viu e da sensação que o dominou, do despertar de um anseio, um desejo de ser notado por ela, de ser amado por ela. Todos os jovens pardais viviam a cortejá-la. Davam-lhe belas plumas coloridas, petiscos apetitosos, ou, então, estufavam o peito, exibindo seus dotes e habilidades físicas. Ela os rejeitou a todos, não por orgulho, mas por achá-los vazios. Foi numa tarde, quando um par-dal mais impetuoso quis agarrá-la, que Gruc interviu e se fez notar, dando uma surra no grã-fino atrevido.
- Obrigada por me ajudar.
- Ora, não foi nada.
- Eu me chamo Cristal, e você?
- Eu me chamo Gruc.
- Gruc? Que nome estranho...
- Foi meu pai que me deu. Ele contou que tão logo eu nasci, esperou pelo primeiro piar. Mas parece que tive um soluço e fiquei: "Gruc, gruc, gruc,..." Ele achou gozado e me batizou. Mas me diga, e seu nome, de onde vem?
- Bem, segundo minha mãe contou certa vez, eu nasci numa fresca manhã, após uma noite de chuva. As gotas ainda cobriam tudo e refletiam a luz como pequenos cristais. Para guardar para sempre este momento, ela sugeriu a meu pai que me desse o nome de Cristal, meu pai concordou e Cristal ficou sendo.
- Uma linda história... e um lindo nome.
- Ora, obrigada.
E assim começou
Gruc suspirou, olhou-a com carinho, enquanto ela sentia o apetite voltar.
- Eu também te amo, Cristal, muito. Agora, preciso con-tinuar a busca. Tome cuidado.
- Você também, amor.
Gruc mergulhou na imensidão, saiu das folhagens e, des-crevendo um grande arco no céu, desapareceu do campo de visão de Cristal. No ar, o odor de suas penas pairou por um breve instan-te, único vestígio de sua presença.
Cristal terminou de comer o biscoito. Estava saboroso. Não ousou pensar na árvore ou em qualquer coisa que pudesse afas-tar a felicidade que estava sentindo. Havia a primavera, o céu aberto, o suspiro da brisa acariciando as colinas, o zumbido de uma cigarra...
O zumbido cessou.
A árvore tremeu ligeiramente...
O estômago de Cristal contraiu-se, tornou-se pequenino e temeroso. Cristal viu-se de volta à Terra, ao presente. Preparou-se para ouvir aquele som cavernoso, vindo do desconhecido. O céu subitamente deixou de ser tão azul.
O quê ouviu gelou seu coração:
- ... Cris... tal...
Gruc voava mais lentamente. Sempre que podia, aproveita-va o vento, planando. Passou sobre as pedras onde vivia o Zé Bode, passou sobre um pântano que margeava a Lagoa da Meditação. Foi quando ouviu o seu nome. Uma voz rouca, fossilizada, o chama-va.
- Gruc! Ei, Gruc!
- ... Ah! Boa tarde, Mestre Tirugo.
Tirugo, um velho jabuti, estava entre umas pedras graní-ticas arredondadas, quase se confundindo com estas. A abertura de seu casco voltada para a lagoa de águas plácidas, cuja superfície devolvia reflexos dourados. Libélulas, qual beija-flores, faziam seu vôo quebrado por entre a vegetação aquática, sempre a procura de algo.
Tirugo era velho, muito velho. Olhando minuciosamente, chegava-se a ver musgo crescendo entre os hexágonos de seu casco. Grossas rugas emolduravam seus olhos cheios de vida.
Gruc, pousando sobre uma das pedras próximas, fitou o ancião.
- Mestre Tirugo, algo de estranho se passa em minha árvore.
- Sim, eu sei. Nossa fonte voadora de informações esteve aqui hoje de manhã.
- Currupaca?
- Naturalmente. Porém, eu gostaria de saber diretamente de você o que foi que aconteceu.
- Sim... porém em outra ocasião. Agora estou procurando um novo lugar para um novo ninho e preciso encontrá-lo o mais depressa possível. Por falar nisso, o senhor não conheceria al-gum, conheceria?
- Infelizmente não. Deve, contudo, saber que a mudança de ninho em plena época de choco é algo muito perigoso para seus filhos.
Gruc baixou os olhos. Esforçava-se para parecer calmo, mas dentro de si uma pressão esmagadora procurava se libertar.
- Eu sei, mas não podemos suportar outra noite como a de ontem. Pode nos ajudar?
- Não estou certo. É preciso que você encontre forças dentro de si para não perder o controle. Sinceramente, duvido que encontre um local sequer que não esteja ocupado, principalmente se considerarmos que estamos em plena primavera. De um modo ou de outro, a mudança dos ovos soa-me impraticável num curto espaço de tempo.
- Então, o que devo fazer? - perguntou Gruc, agitado.
- Faça um breve resumo do que aconteceu. Não levará tanto tempo quanto possa imaginar. Estive recordando velhas his-tórias e quero compará-las com o que você me contar.
Gruc, então, o mais depressa que pôde, narrou a Tirugo sobre o estranho lamento da Árvore dos Lamentos. Realmente não demorou tanto assim.
Enquanto Gruc narrava, Tirugo pôs-se a olhar as folha-gens das árvores. Parecia estar cavoucando fundo, muito fundo, dentro de si mesmo. Gruc já conhecia o jeito do velho jabuti e por isso não estranhou. Era em ocasiões como esta, dissera Tirugo certa vez, que "o espírito se expandia, libertando-se dos limites do corpo para se tornar um só com o Todo". Gruc não entendia muito bem o significado daquilo, sabia sim, que era algo solene e profundo. Finalmente, minutos depois de Gruc haver se calado, Tirugo levantou os olhos e pousou-os sobre ele.
- É sabido desde os tempos mais remotos, que os vegetais não possuem o dom de falar ou de se mover. No entanto... existem velhos mitos, contados por meu bisavô, a respeito de uma época muito mais antiga, quando a maior parte do mundo era um grande pântano. Nessa época, tanto os animais como os vegetais andavam, voavam ou nadavam. E todos falavam uma linguagem só chamada sim-plesmente de A Língua. Em data ignorada, as plantas, achando-se superiores aos animais devido a sua auto-suficiência, revolta-ram-se contra a Grande Luz, exigindo soberania sobre aqueles...
- Grande Luz?
- Sim. Trata-se de um ser extraordinário, sem forma, mais brilhante do que o Sol, sem contudo ofuscar quem o vê. Diz a lenda que foi o criador de tudo, das coisas vivas e não-vivas e que, apesar de seu imenso poder, era todo bondade e pureza. Que eu me lembre, nunca vi alguém que a tivesse visto ou que conhecesse quem a tivesse visto. O mito diz que a Grande Luz está e toda parte, seja de dia ou de noite...
- E a revolta?
- Ah, sim... Os vegetais descontentes passaram a vascu-lhar por cada canto, cada montanha e cada vale, à procura da Grande Luz. Chegaram a mergulhar nas águas profundas e fuçar por entre as nuvens, não obstante sem resultado. A Grande Luz, diz o mito, não aparece para quem a quer encontrar, mas sim para quem não quer dela se desencontrar. Assim, o plano das plantas em absorver um pouco de sua luz e, quem sabe, um pouco de seu poder, fracassou. Iradas, passaram a investir contra os animais. Era uma luta desigual, afinal, as plantas não sentiam dor e nem dormiam. Algumas eram fortíssimas e outras dotadas de poderosos venenos. Milhares de animais foram engolidos em crescentes ondas de ódio. Quando tudo indicava que os animais iriam sucumbir, a Grande Luz surgiu. Estava em toda parte. Para os vegetais, a Grande Luz, excepcionalmente, ofuscou-os completamente e, para todo o sempre, cegou-os. Apesar de sentirem seu afeto, instintivamente percebe-ram nela um sentimento de decepção. Uma voz, vinda não se sabe de onde, disse serenamente que os vegetais, por seus crimes abominá-veis, deveriam ser punidos, porém não com a não-existência e sim com a não-vida em vida. Antes que animal ou vegetal tentasse compreender o que fora dito, a luz ficou mais forte. Um calafrio percorreu todos os vegetais, seus corpos se enrijeceram e suas vozes morreram nas gargantas. A partir de então, os vegetais, além de cegos, tornaram-se mudos e imóveis para toda a eternida-de, sujeitos aos caprichos dos animais que poderiam deles fazer seu abrigo, ou devorar seus frutos, ou roer seu tronco, ou furtar seu néctar. Uma não-vida em vida.
Gruc ouviu tudo muito atento, pensando em sua árvore. Apesar dos minutos estarem correndo, a revelação de Tirugo mos-trou-se muito importante.
- Então... o senhor acha que a Árvore dos Lamentos é uma daquelas árvores que andavam e falavam dos tempos antigos?
Tirugo enrugou ainda mais os olhos.
- É possível. Talvez seja uma herdeira, uma mutante cujo dom, adormecido durante milênios, acabou misteriosamente desabro-chando agora. Ou, então, uma semente daqueles tempos tenha sobre-vivido ao castigo da Grande Luz e só agora tenha germinado. Sin-ceramente, não sei ao certo. Mesmo a história que lhe contei são relatos de antigas lendas, cuja verdade pode ser bem diferente.
Um pensamento afligiu o jovem pássaro.
- Mas se tudo for verdade e essa árvore tiver ligação com as árvores do mito... Cristal pode estar em perigo! Meu Deus! Preciso voltar imediatamente!
Gruc fez menção de alçar vôo.
- Espere! - deteve-o Tirugo. - Tenha calma, não entre em pânico. A imaginação é uma bênção maravilhosa, contudo, pode converter-se facilmente em nosso pior inimigo. Pelo que sei, se sua árvore fosse realmente hostil, ela já teria feito algo bem antes de Cristal pôr os ovos. E mesmo que sentimentos maus a guiassem, ao que tudo indica, a sua árvore só foi dotada do dom da fala e não dos movimentos.
- Mas, então, o quê fazer?
- Vamos fazer o seguinte: iremos ambos até a Árvore dos Lamentos... não... melhor ainda, você vai primeiro, para confor-tar Cristal. Eu sou consideravelmente mais lerdo e só iria te atrasar. Lá pelo finzinho da tarde, eu deverei estar em sua casa. Quero pessoalmente ouvir o que a árvore tem a dizer. Agora vá.
- Até breve, Mestre!
Um ruidoso farfalhar, um vento repentino, um arco no céu, um ponto escuro sumindo e sumindo.
Tirugo caminhava lentamente por trilhas quase invisíveis entre arbustos, pedras e o mato rasteiro. Vez ou outra, uma modificação na paisagem, uma folhagem nova, um trecho mais erodido, deixava-o confuso, achando que tinha se perdido. Pedia, então, ajuda a uma ave, a uma lebre, a quem quer que encontrasse.
- Será que a árvore é mesmo mal-assombrada como andam dizendo por aí? - perguntou um curioso bem-te-vi.
- Duvido... Assombrações, espíritos da mata, fantasmas e monstros são apenas rótulos de nossa própria ignorância. Tentam explicar o desconhecido sem nada explicar. Apenas dão forma aos nossos medos, dão um invólucro palpável e familiar para que nos sintamos mais seguros. Porém, retire-se o invólucro, o véu com que cobrimos nossos temores e verá, cara-a-cara, o Desconhe-cido, a Escuridão. É essa escuridão que precisamos iluminar com a luz da compreensão e da verdade.
As sombras foram se alongando. O vento, fazendo vergar os arbustos, trazia o cheiro do entardecer e da noite que se aproximava. Pequenos animais que encontrava o cumprimentavam receosos; outros, observavam-no furtivamente.
Por fim, ao contornar uma rocha, lá estava ela: a Árvore dos Lamentos. Seria uma árvore como as outras, não fosse o estra-nho silêncio a envolvê-la e o mistério que a encerrava.
Tirugo nem chegou ao pé da árvore e foi recebido por Gruc.
- Mestre Tirugo...
- E então, Gruc, tudo bem? Como está Cristal?
- Oh, ela está bem. O senhor vai ficar surpreso ao saber o que aconteceu enquanto estivemos juntos na Lagoa da Meditação...
- Conte-me - pediu Tirugo.
- A árvore falou com Cristal. Isso mesmo. Cris contou ter ficado muito assustada a princípio, quando, pouco depois que saí, a árvore em meio ao silêncio pronunciou seu nome. Ela chegou a se levantar para fugir, mas não o fez. Ficou a espera do que viria. Tentou de início não prestar atenção, porém acabou deixan-do-se levar pelo que a árvore dizia. É uma história estranha, tão estranha quanto aquela que o senhor me contou. A árvore descul-pou-se pelo susto que nos dera.
- Bem, Gruc, ao menos é um alívio saber que tudo está bem. E a árvore, ela chegou a falar com você?
- Sim, ela falou. Não me pareceu ser uma árvore má. Como Cristal, eu também me assustei; aquela voz rouca, raspante, como se visse de toda parte. As paredes do ninho tremiam sempre que ela falava alguma coisa. Contou uma história estranha de sonhos e anseios. Falhei-lhe do senhor, que o havia chamado para tentar ajudar com sua experiência e conhecimento. Ela quer falar como senhor diretamente.
- Comigo?
- Sim. Na base do tronco há uma concavidade através da qual poderá escutá-la. E nós também poderemos conversar: eu, o senhor a árvore e Cristal, mesmo estando no ninho.
Tirugo foi até a base do abacateiro, aproveitando os últimos fiapos de luz, antes de serem engolidos pelas trevas. Encontrou o buraco da árvore meio oculto entre as folhagens e a escuridão.
- Eu não vou caber aí. É estreito para o meu casco e também não é muito profundo...
- Não tem importância. O que couber, disse Nuvem Branca, será o bastante. O importante é estar o mais próximo possível do coração do tronco.
- "Nuvem Branca"?
- Ah, sim... ia me esquecendo. É o nome da árvore.
- Nuvem Branca... que nome estranho para uma árvore, cujas cores predominantes são o verde e o marrom.
- Mais estranho ainda é a sua história.
Tirugo franziu os olhos e enfiou-se tronco adentro. Foi entrando até ficar entalado quase na metade do casco. Gruc, por sua vez, voltou para o ninho.
O interior do tronco era frio e úmido. Havia o cheiro de cogumelos crescendo nas profundezas da terra, o som de gotas d'água escorrendo de rugosos estalactites. Tirugo aguardou. Não sentia medo. Vivera tanto e conhecera tanto da vida que quase nada mais que surgisse poderia surpreendê-lo. Ao menos era o que supunha.
Subitamente, escutou algo. Aguçando os ouvidos, reconhe-ceu a voz de Gruc. Parecia distante, tal qual ecos vindo do fundo de um poço.
- Tirugo! Mestre Tirugo, está me ouvindo?
- Estou sim, Gruc, um tanto fraco, mas compreensível. E Cristal, como está?
- Estou bem, Sr.Tirugo - respondeu Cristal um tanto sem jeito. - Obrigada por vir nos ajudar.
- Ora, não foi nada. Realmente, não fiz nada até agora. Bem... creio que está faltando um membro em nossa reunião.
- Sim - retomou Gruc. - Mestre Tirugo, quero lhe apre-sentar Nuvem Branca... Nuvem Branca, apresento-lhe Mestre Tirugo, o sábio de que lhe falei.
- Não seja exagerado, Gruc. Como vai, Nuvem Branca?
Fez-se silêncio. Tirugo esperou. Quando estava prestes a repetir o cumprimento, supondo que não tivesse sido ouvido, sen-tiu um leve tremor no ar, como um súbito suspiro.
- ... Como... vai... senhor... Tirr... rugo...
Tirugo não pôde deixar de sentir um arrepio percorrer-lhe o casco. Podia jurar que não era de frio...
Procurando não demonstrar as emoções que o estavam pos-suindo, pediu à árvore que, mais uma vez, contasse sua história.
A árvore soou confusa de início, frases quebradas e até desconexas, vacilantes, todavia, logo adquiriu ritmo e direção, pondo-se, assim, a narrar claro e firmemente:
- Aconteceu há alguns meses. Não estou certo quanto ao tempo exato. Para mim, tudo não passava de uma grande escuridão, um nada total. Era como se eu estivesse imerso num sono profundo, sem sonhos e sem saber que um dia eu havia dormido. Então, des-pertei. Não sei como e nem porque, mas de meu estado de insensi-bilidade total, passei a ter consciência das coisas. Inicialmen-te, tive consciência de mim mesmo. Comecei a sentir a seiva indo e vindo de meus vasos, os poros de minhas folhas se abrindo e se fechando, a celulose abrindo espaço para novas células. Depois, passei a captar sensações do mundo exterior. O Sol a me aquecer nas manhãs, alimentando-se com sua poderosa energia. O vento noturno a agitar minhas folhas e meus galhos mais finos. A chuva a acariciar meu tronco, alimentando minhas raízes. Os diferentes sons da mata, cuja origem não sabia determinar. Era tudo estranho para mim. Não sabia quem eu era, não sabia onde estava. Para mim, nada mais havia que um despertar de sensações e a escuridão en-volvente. Entretanto, numa inesquecível manhã, a luz nasceu para mim. De início, os contornos se mostraram como manchas escuras num fundo claro. Massas confusas, movendo-se, misturando-se. Quando pude finalmente ver com nitidez, fui inundado com milhares de imagens e informações. Um bombardeio incessante, quase perdi a razão. E... pouco depois das imagens... emergiu de dentro de mim as lembranças... Essa talvez seja a parte mais estranha de minha história. Ao mesmo tempo em que via as árvores vizinhas, os mor-ros distantes, o Sol, os pássaros e as borboletas, imagens de outras árvores, outras paisagens e seres da mata apareceram. Não sei explicar. Tinha visões de outros horizontes, horizontes que mudavam. Via um vasto manto de água que se perdia longe, muito longe, tornando o horizonte uma linha reta, dividindo o céu das águas. Ouvia o som das águas batendo repetidamente contra as rochas e uma esteira de fina areia branca, cobrindo a praia. E a mata, a praia o horizonte pareciam mudar de forma. Foi, então, que compreendi. Não eram eles que mudavam, mas eu! Era eu que me movia, era eu que, juntamente com um bando de aves brancas, voava pelos ares...
- Voava? - resmungou Tirugo.
- Sim, voava. Não sei dizer como ou porque, mas sei, tenho plena certeza, de que um dia, perdido no passado, eu fui um pássaro, uma daquelas aves brancas, que, em bandos, habitam as rochas à beira da Grande Água. Era uma ave que se sentia dona de si, dona do céu, flutuando como o orvalho da manhã, navegando com o vento em deslizes refrescantes. É, portanto, capaz de compreen-der a minha angústia, a minha tortura? Essa solidão, essa falta de liberdade para quem, um dia, viveu com milhares de outros semelhantes, cheio de vida, indo à toda parte, conhecendo muitos lugares, sendo a liberdade uma parte vital da existência. De repente, a escuridão, o nada e depois o despertar para esta condição... Compreende a tortura que é para mim ver o maravilhoso céu azul lá no alto, ver os pássaros voando em bandos, em todas as direções, observar as nuvens percorrerem lentamente a abóbada celeste e não poder compartilhar nada disso? Compreende o sofri-mento que sinto ao ver-me dia após dia, noite após noite preso a este chão, rodeado por árvores mudas e criaturas que fogem assus-tadas a minha menor tentativa de contato?
- Sim, eu posso compreender, realmente posso. Nós, jabu-tis, somos lerdos e solitários por natureza, contudo, sabemos a importância da vastidão dos céus para os seres alados e, bem no fundo, até invejo aqueles que repartem com as nuvens os domínios dos ares. Sua história é estranha, muito estranha. Eu tinha uma teoria a seu respeito, mas foi por água abaixo...
- Gruc me contou sobre o mito a respeito da guerra entre vegetais e animais.
- Sua origem tem outra explicação, algo que, de imedia-to, não sou capaz de dar. Quanto à sua solidão, ao menos agora você não se sentirá tão só. Gruc, Cristal, eu e, futuramente outros animais conhecedores de sua triste história, poderemos conversar sempre com você.
- É verdade. Desde que despertei do vazio, este é o melhor momento da minha vida.
- Agora, quanto à sua liberdade, isso infelizmente não há como podermos ajudá-lo; ao menos por ora eu não consigo ver como...
Nos dias que se seguiram, mais e mais seres da mata foram aparecendo. A história incrível de Nuvem Branca voou longe, por assim dizer. Todos queriam conhecê-lo, todos queriam amenizar seu sofrimento, contando histórias que conheciam ou aventuras de que tinham participado. Nuvem Branca ouvia a todos pacientemente. Havia alegria em sua rouca voz quando comentava algo e ele pró-prio narrava alguma reminiscência de sua "outra" vida. Todavia, paciência mesmo ele tinha com Currupaca. Esta, após superar o medo inicial, prontificou-se a fazer uso do melhor dom de que foi dotada pela Mãe-Natureza.
Só Gruc e Cristal ficaram um tanto contrariados de iní-cio. Eles, que apreciavam o sossego e a privacidade, viram-se subitamente cercados por todos os lados. Às vezes, a altas horas da noite, eram despertados pelo agora familiar tremer das pare-des: era Nuvem Branca falando com um morcego ou com uma coruja. Mas foram se habituando. Compreendiam os sentimentos do novo amigo e, afinal de contas, se tinha alguém com direito de recla-mar, esse era o próprio Nuvem Branca que se via obrigado a servir de abrigo a dois intrusos em suas próprias entranhas.
Tirugo retornou à Lagoa da Meditação. Vez ou outra, porém, aparecia para conversar, contar uma velha história de que havia se lembrado, entre tantas que já ouvira.
A primavera estava terminando. O Sol, cada vez mais forte, prenunciava um tórrido verão. Plantas mais frágeis defi-nhavam como se seu peso fosse um fardo demasiado grande. O vento rareava e, no Sol a pino, praticamente inexistia. Havia no ar um cheiro de terra seca, poeira e sonolência.
Muitos animais iam até o lago saciar a sede. Mesmo Zé Bode, normalmente teimoso em deixar sua casa nas rochas, desceu e, agora, molhava sua barbicha desgrenhada. Ele estava velho para um bode, embora para Tirugo não passasse de uma criança. A idade tornou Zé Bode um velho muito rabugento. Não fora ver Nuvem Branca e tampouco demonstrava qualquer interesse em vê-lo.
- Mas por quê? - indagou-lhe Tirugo.
- Ah! Só porque uma droga de árvore aprendeu a falar não quer dizer que eu tenha de ficar bajulando.
- Ora, filho, não é bem assim.
- Tudo bem, tudo bem, seja como for, prefiro a tranqüilidade das rochas a algazarra que estão fazendo em torno daquele abacateiro.
Tirugo olhou-o com um sentimento de pena. Num recanto obscuro de seu ser, Zé Bode era um bom sujeito, todavia, sua tendência a viver solitário em meio às rochas de um morro despido tornara-o uma criatura de mente e ações limitadas. A impressão que se tinha era a de que seu horizonte só ia até onde seu foci-nho alcançava. Inclusive com a esposa e a filha assumia uma ati-tude esquiva. "No fundo, os que buscam a solidão são os que mais necessitam de alguém, contudo, por medo de se decepcionarem com aquilo que procuram, preferem fugir a encarar a verdade", refle-tiu o idoso jabuti.
Tão logo satisfez-se, mal grunhindo uma despedida, Zé Bode deu meia-volta, e, com os cascos espalhando poeira num som seco e abafado, sumiu por entre as árvores e arbustos.
Tirugo havia meditado muito nas últimas semanas. Mesmo quando a Lua Cheia brilhava gloriosa no céu, ele ainda estava acordado, quietinho em seu cantinho, observando a suave luz ondu-lar sobre as águas. De dentro de seu casco, observava o exterior como se estivesse olhando através de uma janela arredondada. Via o céu estrelado, a vegetação respondendo às carícias da brisa noturna, sons longínquos de grilos boêmios.
Nessa noite, Tirugo viu a primeira estrela surgir no azul claro do céu, como a desafiar o Sol que tocava o horizonte. "O que são as estrelas?", perguntou-se mais uma vez. Sabia que estavam muito altas no céu, mais altas que as nuvens. Os pássaros a quem pedira para que tentassem alcançá-las retornaram frustra-dos. Tirugo podia ouvir a voz do velho Carapaça, seu bisavô, a lhe dizer:

- As estrelas são magia, pequenino.
- Magia? Como assim? - perguntara confuso.
- São magia sim... estão lá no alto visíveis, mas inal-cançáveis. São olhos perdidos no escuro rosto da noite a nos vigiar sempre. São a beleza do mistério a nos mostrar que o co-nhecido é uma estrada a se ramificar nos desconhecidos. Por mais que tentemos tocá-las, elas parecerão se afastar ainda mais, quer subamos as montanhas mais altas, quer voemos até onde o vento permita. E nisso reside sua beleza, esse dom das estrelas de abrir nossas mentes e fazê-las fundir com elas, na vastidão do Infinito. Acredite, pequenino, se nós pudéssemos tocá-las e des-cobrir o que são realmente, não passariam de um grande vazio...

Uma folha seca, arrastada por um vento súbito, chocou-se com seu focinho, fazendo-o se encolher ainda mais por reflexo, tirando-o de sua suave meditação.
Qual o mistério por trás de Nuvem Branca? Era esta a pergunta para a qual tentava encontrar uma resposta noites segui-das.
Pensara muito a respeito. As noites eram ideais para a meditação: tranqüilas, serenas, a maioria dos bichos dormindo, podendo ele refletir em paz na certeza de não ser perturbado.
Formulara uma teoria. Parte dela vinha de fragmentos de memórias, de velhas conversas, de velhos mitos, todos saídos de um baú poeirento, esquecido no velho sótão de seu velho cérebro. Outra parte, acreditava ser de sua própria autoria.
Num lugar indefinido, longe de tudo, porém próximo, existia uma grande massa informe. Não era uma substância, algo que pudesse ser apalpada; era mais como uma forma de energia, semelhante à luz e ao raio.
Assim que um novo ser era gerado, parte dessa energia se destacava e, como a brisa noturna vasculhando o bosque, infiltra-va-se na matéria, preenchendo-a completamente. Esta passava, a partir de então, a ser dotada de vida.
Essa energia responsável pelo dom da vida poderia ser chamada de Energia da Vida ou Luz da Vida, sem uma relação visí-vel com a Grande Luz.
Quando uma criatura morria, essa energia se desprendia do corpo, agora sem utilidade, e retornava a grande massa origi-nal. Consigo, levaria a experiência adquirida neste mundo e a incorporaria à Grande Massa, beneficiando-a como um todo. Porém, a cada nascimento, uma porção de energia voltaria a se despren-der, só que viria desprovida de recordações, límpida como a chuva a cair do céu e penetrar na terra, pronta a absorver novo conhe-cimento e ser absorvida por ele.
No caso de Nuvem Branca, teria havido um erro. A Energia da Vida que se apossara do abacateiro tão logo brotara não viera pura, livre de sua memória anterior. As memórias, aparentemente adormecidas, foram pouco a pouco desabrochadas até que a fina garoa da lembrança se convertera em impiedosa tempestade.
Tirugo não conseguiu imaginar uma explicação para o erro cometido e muito menos determinar sua freqüência no mundo vivo. Chegou a se perguntar se os sonhos que todo mundo tinha enquanto dormia não seriam frágeis recordações de uma outra vida, tênues elos unindo dois mundos, um deles perdido para sempre.
Quanto ao problema de Nuvem Branca, ele só via uma solução, por mais cruel que a princípio pudesse parecer: Nuvem Branca teria de morrer para que sua energia retornasse à Grande Massa e se purificasse.
Ficou inquieto tão logo chegou a essa conclusão. A ma-drugada ia alta quando ele, exausto do esforço mental, adormeceu.
Passaram-se alguns dias até Tirugo decidir-se finalmente a revelar a Gruc, Cristal e, principalmente, Nuvem Branca, a teoria que chegara.
Nuvem Branca ficou muito deprimido.
- Sinto muito - disse Tirugo -, mas não consegui encon-trar qualquer outra hipótese que superasse esta que acabo de lhe contar. Sei que não fui nenhum pouco encorajador, mas acredito que nossa amizade merece esta sinceridade.
- Não se preocupe, Tirugo. Agradeço-lhe de coração, se é que, como árvore, possuo tal órgão. Se mostro-me entristecido é porque creio ser sua história verdadeira. Mas mesmo que o senhor nada tivesse dito, duvido que ficaria menos triste do que tenho estado ultimamente.
Gruc e Cristal ficaram chocados demais para poderem comentar qualquer coisa.
O nascimento dos filhos de Gruc e Cristal foi um aconte-cimento marcante na mata. Desde o dia em que Nuvem Branca se revelara, o jovem casal havia se tornado famoso e, agora, Gruc e Cristal faziam parte das histórias da mata. Suas aventuras e até acontecimentos corriqueiros eram contados de boca em boca ou de bico em bico e, ninguém duvidava, seriam-no de geração em geração.
Muitos animais visitaram o casal e Nuvem Branca. Nuvem Branca ficou muito parecido com a Árvore Azul pelo seu incrível colorido. E estava inclusive de bom humor, embora não conseguisse responder aos vários bichos que lhe falavam simultaneamente, e o calor estivesse cada vez mais sufocante.
- Calma, pessoal, calma - pedia Gruc. - Vocês estão deixando meus filhos assustados.
Realmente, o jovem casal que nascera estava apavorado. Abrigados sob as quentes asinhas de Cristal, fitavam de olhos arregalados o punhado de cabeças multicores e multiformes que surgiam repentinamente na abertura do ninho, guinchando, piando, grasnando.
Muitos animais como as lebres, os tatus, os tamanduás, os cães e os veados, que não conseguiam subir em árvores, limita-ram-se a ficar de fora, olhando para a abertura do ninho e a fofocarem entre si sobre o futuro dos rebentos.
A situação prolongou-se um mês inteiro.
Foi preciso a intervenção de Tirugo, respeitado por todos os animais, para que os ânimos se acalmassem e, aos poucos, a multidão se dispersasse.
- Ufa! Obrigado, Mestre Tirugo... que alívio! - desaba-fou Gruc.
- Não foi nada. Parabéns, "papai", soube que se trata de um lindo casal.
- É verdade - respondeu Gruc, feliz e orgulhoso -, são tão lindos... Suas penugens são tão delicadas. Eles se assemelham a flocos de algodão. E não são barulhentos não, a não ser quando estão famintos. Aí, não há quem segure.
A felicidade de Gruc era tamanha que ele não parava de dar piruetas. Quem o visse de longe e não o conhecesse, poderia julgar tratar-se de um maluco, um pássaro que tomou Sol demais.
- Às vezes me surpreendo como o tempo passa... - comen-tou Tirugo. - Puxa vida, não fazia tempo eu o via, você, Gruc, um garotinho todo serelepe a aprender as primeiras lições de vôo. Lembro-me de seus pais, jovens, e dos pais deles. E todos os animais, gerações indo e vindo num ciclo sem fim. Bem, mas me diga, Cristal, como está?
- Ah, está ótima! Toda feliz como eu.
- E Nuvem Branca?
- Ele gostou, ainda mais quando lhe contei que daria seu nome ao garoto. Mas sinto, apesar de tudo, que com o passar dos dias e das semanas, ele tem se tornado um tanto amargo.
- Amargo?
- Sim. Sinto que está enjoado de ouvir as conversas dos outros animais, principalmente dos pássaros. Cada vez que um deles começa a contar sobre algum novo lugar que descobriu ou falar das brincadeiras que fizeram, planando ao vento puro das alturas, Nuvem Branca vai se mostrando cada vez mais impaciente, tenso e irritadiço. Com freqüência cada vez maior, vem dispensan-do os visitantes, alegando cansaço. As visitas vêm diminuindo dia-a-dia. Nem conosco ele tem conversado e nós procuramos res-peitar seu silêncio.
A expressão radiante de Gruc fora substituída por um ar preocupado e sério.
- Que acha que está acontecendo, Mestre?
Tirugo demorou a responder; com certeza, cavoucando fundo nas profundezas da mente.
- Era o que eu receava, só que não supus que chegasse tão cedo... Imagine você, Gruc, se por desgraça do destino, caís-se numa poça de lama e esta endurecesse tão rapidamente que nem desse tempo de você se libertar. Você ficaria todo imobilizado, não?
- Sim, ficaria. Sonhei algo semelhante certa vez.
- Heim? Como assim?
Gruc falou-lhe do sonho, de quando Cristal gritou.
- Ah, sim, muito estranho, estranha coincidência. Bem, mas voltando à lama: você ficaria imóvel e consciente, como Nuvem Branca. Imagine-se realmente nesta situação, você, que adora descrever grandes arcos no céu e a dar cambalhotas no ar. Qual seria sua sensação?
Gruc pensou, imaginou-se como seria ser subitamente preso numa couraça sem poder voar, isolado para sempre de seus semelhantes, de Cristal e dos filhos principalmente. Então, res-pondeu:
- Desespero, puro desespero.
- É o que deve estar atormentando Nuvem Branca. De que adianta saber o que os outros viram, se ele jamais verá? Para ele, saber o que os pássaros sentem em meio às nuvens deve ser uma grande tortura, pois jamais voará, ao menos nesta vida. As-sim, as conversas, tanto dos pássaros como as de quaisquer outras criaturas devem lhe constituir, passada a fase inicial, motivo de grande frustração pelo simples fato deles se moverem. A simples visão de uma ave voando ou uma serpente rastejando, dia após dia, deve servir apenas para lembrá-lo constantemente o que ele não pode mais fazer. Entretanto, isso não é tudo. Você sabe qual o tempo de vida de um abacateiro?
- Não, nem faço idéia.
- As árvores se caracterizam pela longevidade. Nuvem Branca, queira ou não, é uma árvore, e uma árvore jovem. Ele deve estar adquirindo consciência de que, como tal, viverá muito, muito tempo, por centenas de anos nesta condição. Tente presumir mais uma vez o que significa isso, tente sentir isso. Um prisio-neiro secular, vendo criaturas nascerem, crescerem, moverem-se pra lá e pra cá, terem filhos, envelhecerem, morrerem, dia após dia, ano após ano, década após década, século após século. A solidão eterna, a imobilidade eterna.
Gruc estava começando a se assustar com as dimensões que Tirugo estava dando da situação de Nuvem Branca.
- Céus! Não havia pensado na situação dele sob este prisma. A prisão eterna... solidão, desespero, vendo amigos mor-rerem, jamais conhecendo o amor de uma companheira, jamais sen-tindo o calor de um filho... Uma vida sem motivação, sem emoção, o tempo correndo lenta e inexoravelmente rumo a um descanso que parece jamais chegar... Há algo que possamos fazer?
- Precisamos fazer Nuvem Branca encontrar um objetivo na vida. Deve haver uma forma de transformar sua condição em vanta-gem para si próprio e tirar proveito dela. Não sei ainda como; seja o que for, deve ser algo a longo, longo prazo.
- Tentarei pensar em algo, Mestre. Preciso ir agora, as crianças estão famintas e Cristal também.
- Oh, sim, naturalmente - disse Tirugo, como que desper-to de um sonho. - Caso eu encontre uma solução, irei comunicar imediatamente a Nuvem Branca, a você e a Cristal. Por ora, dei-xe-o imerso em seus próprios pensamentos. Tente não falar muito enquanto estiver no ninho, Cristal também... Ah! Quase ia me esquecendo: que nome você escolheu para sua filha?
- Foi Cristal quem escolheu. A menina se chamará Grande Luz.
- Nuvem Branca e Grande Luz... Sim, lindos nomes.
O dia sufocante cedeu lugar à brisa fresca da tarde. A temperatura estava caindo, trazendo o alívio a plantas e animais. Tirugo, recolhendo as patas, pousou seu casco suavemente no chão coberto de musgo castanho-avermelhado, num recanto úmido e som-brio da Lagoa da Meditação. Olhou a sombra de uma pequena marga-rida, agora mais longa que ela própria. Por um instante, passou-lhe na mente o pensamento de ir devorá-la, mas não o fez. "Que bela e efêmera é a vida", pensou, admirando o miolinho amarelo emoldurado pela coroa de pétalas brancas, agitando-se com o ven-to. "Com uma simples mordida posso fazê-la desaparecer para sem-pre, como se jamais houvesse existido. Posso apagá-la para sempre da lembrança dos que a viram e interromper bruscamente o destino daqueles que a veriam e a admirariam. Com uma mordida nada resta-ria senão um fino talo, mudo e triste, despido de sentido. E, passado alguns dias, esse talo murcharia, secaria e, por fim, desapareceria. O Nada é o derradeiro fim de todas as coisas. De que haveria servido esta pequena flor se sua vida fosse subita-mente interrompida? Ainda não teve tempo de deixar descendentes. É jovem e bela, como o é a vida, eternamente revigorada. Há algum tempo atrás, ela teve uma outra flor que a gerou, esta, por sua vez, também e assim sucessivamente, indefinidamente, retrocedendo no tempo e no espaço. Milhares, milhões de gerações, milhões de margaridas, cada qual tendo vivido sua própria vida, cada qual com sua própria história, cada qual encontrando o Nada pelos seus próprios caminhos. Com apenas uma mordida, uma única mordida, posso destruir não somente uma flor, mas milhões de flores, toda uma linhagem que atravessou o corredor infindável do tempo para brotar aqui, neste chão, diante de meus olhos. E, destruindo-a, destruirei também outros milhões de flores que nasceriam nas gerações futuras. Que bela e efêmera é a vida. Que poder assusta-dor existe numa mordida..."
A margarida, indiferente, continuou a balançar ao sabor dos ventos, deixando fluir seu perfume adocidado, carregado de promessas...
- Eu quero voar! - disse bruscamente Nuvem Branca após um longo período de silêncio.
Pegos de surpresa, Gruc e sua família tiveram um sobres-salto. Gruc foi o primeiro a se recompor.
- Voar?
- Sim, voar. Sei que não posso sequer me mexer, muito embora tenha tentado muito. Tentei sim. Esse tempo todo passei me esforçando, procurando sentir meus galhos, minhas folhas, meus frutos. Concentrei-me o máximo que pude para fazer mover nem que fosse uma folhinha. Mas, pela Grande Água, foi inútil. Quando um leve agitar fazia despertar em mim uma chama de esperança, esta se apagava ao descobrir que fora apenas o vento brincando em pequenos redemoinhos. Mas eu quero, eu preciso, eu tenho de voar. Será esse um crime tão hediondo assim? Será essa uma blasfêmia tão grande contra os desígnios da natureza? Não foi a natureza, ou o que quer que seja, mais criminosa, mais cruel e mais pecami-nosa ao me dotar de dons que são para mim a maior das maldições?
Gruc ouvia penalizado e impotente os amargos queixumes de Nuvem Branca. Queria sinceramente poder fazer alguma coisa, mas o quê? Se soubesse onde a Grande Luz vivia, faria o possível para encontrá-la e avisá-la sobre o erro cometido, porém, Tirugo mesmo dissera que a Grande Luz não aparecia para quem a queria encontrar... entretanto, tudo não passava de lendas.
Nuvem Branca prosseguia em seu monólogo, aparentemente interminável.
- Eu quero ser livre! Quero sentir o frescor da manhã, voando bem alto no céu. Quero sentir o aroma verde das matas que beiram a Grande Água. Quero ouvir seu rugido ao se chocar monóto-na e repetidamente contra os penhascos nus e erodidos. Quero ouvir o seu murmúrio ao acariciar as areias brancas de uma ensea-da solitária. Por tudo o que é sagrado, eu quero estar com meus companheiros, competindo para ver quem apanha o primeiro peixe ao raiar do Sol. Quero seguir os humanos em suas embarcações, poder compartilhar com eles o idêntico amor que sentimos por aquele imortal horizonte azul. Que será que fiz de tão terrível para estar agora aqui, preso, longe de tudo que amei? Estas raízes que me fincam ao chão são responsáveis por minha vida, mas também são a minha morte... Morte, será essa a única solução? Terá Tirugo razão? Contudo, nem isso eu consigo...
Nuvem Branca, então, silenciou, mergulhado em profunda tristeza. Gruc e Cristal sentiram as paredes do ninho tremeram ritmadamente. Não tinham mais medo. Nuvem Branca chorava.
- Oh, Gruc, não há nada que possamos fazer? Veja como ele está sofrendo!
- Eu sei, querida. Conversei com Tirugo a respeito. Ele me prometeu que viria tão logo conseguisse pensar em algo. Eu também estive tentando encontrar alguma saída, mas... Pensei que talvez pudéssemos reunir todas as aves da mata, fazendo-as se agarrarem firmemente aos galhos dele. Então, os tatus poderiam cavar sob suas raízes até libertá-lo. Quando ele estivesse solto finalmente, todas as aves bateriam suas asas e ele voaria... Quem sabe, poderíamos até encontrar a Grande Água de que tanto fala e plantá-lo em suas proximidades, perto de seus antigos semelhan-tes.
- E não daria certo? - perguntou Cristal, esperançosa.
- Infelizmente não. Ele é grande e pesado demais. Duvido que todas as aves do mundo conseguissem sequer mantê-lo de pé assim que estivesse com as raízes livres.
- E se todos os animais, não só as aves, ajudassem? E se, ao invés de tentarem levá-lo pelo ar, fizessem-no por terra?
- Como?
- Arrastando-o. Ele não teria seu sonho de voar concre-tizado, mas ao menos poderia viver perto da Grande Água. Uma vez ele me disse que todos os rios conduziam à Grande Água. Podería-mos arrastá-lo até um rio próximo. Ele iria flutuando até a Gran-de Água e aí o replantaríamos.
- Ah, querida, querida... O rio mais próximo fica além das fronteiras de nosso território, atrás de morros cobertos por densa vegetação. Como poderíamos arrastá-lo? Ele ficaria com os galhos constantemente presos. Como poderíamos fazê-lo subir morro acima? Isso exigiria uma força tão descomunal quanto fazê-lo voar. Ainda que conseguíssemos superar estas dificuldades, leva-ríamos tanto tempo que ele acabaria morrendo no caminho, ainda mais com o calor abafador que tem feito. E, se conseguisse atin-gir a Grande Água, como o colocaríamos de pé?
Cristal silenciou.
- Valeu a intenção, Cris. Falei com outros animais. Não devemos desistir.
Entretanto, o tempo foi passando e nenhuma criatura da mata conseguiu encontrar uma solução praticável.
Os filhos de Gruc e Cristal cresciam rapidamente. A clara e delicada penugem foi sendo substituída por penas fortes e resistentes. Já saíam do ninho para explorar o mundo exterior, observando tudo de um galho. Agitavam suas asinhas, testando-as.
Uma tarde, uma borboleta esverdeada, semelhante a um pequeno morcego, colhia calmamente seu néctar, quando a flor em que estava pousada foi-lhe repentinamente arrebatada. Encolheu assustada sua tromba espiralada. Sobrevoando a flor, pôde ter uma visão de conjunto e perceber o que estava acontecendo. Era Tiru-go. Estava andando em passadas lentas e, sem querer, pisou na base da flor. A flor voltou a sua posição e a borboleta retornou ao seu ofício, não sem antes resmungar uma obscenidade.
Tirugo olhou para o alto, tentando ver Gruc e a abertura do ninho. Foi inútil. A densa folhagem não o permitia. Havia apenas um verde vivo com mil movimentos e o sussurrar de folhas e a se tocarem. Mirando o tronco, ele não lhe deu mais que algumas décadas de vida. Viam-se muitos frutos amadurecendo, carregando a esperança de uma nova geração. "Centenas de Árvores dos Lamen-tos?", perguntou-se inquieto. Chamou:
- Gruc! Gruc! Ei, Gruc!
Nada.
"Estranho", pensou, "não é possível que não tenham me ouvido. E Nuvem Branca está tão quieto..."
Tirugo dirigiu-se, então, à concavidade existente ao pé do abacateiro. A uma certa distância, parecia a boca escancarada de alguma criatura saída de pesadelos. Em seu interior, voltou a sentir as profundezas úmidas da terra.
- Nuvem Branca, está me ouvindo? - gritou.
O ar se tornou trêmulo.
- Sim... estou...
- Aonde estão Gruc e os outros?
- Eles saíram... Creio que Gruc e Cristal foram ensinar aos meninos alguns truques de vôo e como pegar alimentos por conta própria.
- Hum... Você não me parece muito bem.
- Vou levando a vida... Tenho muito tempo para isso. Sei que tem tentado encontrar uma solução para o meu dilema, mas devo lhe dizer que não é mais necessário.
- Não?
- Não. Acho que eu próprio resolvi a questão.
- De que forma?
- Se árvore sou, então árvore serei.
- Poderia se explicar melhor?
- Faz algum tempo, descobri em meio aos meus devaneios melancólicos que o não pensar, o não ouvir, o não ver, o não falar, amenizavam meu sofrimento. árvores não pensam, não ouvem, não vêem, não falam. Decidi assumir minha condição de árvore. Tenho conseguido às vezes permanecer alheio a tudo o que acontece a minha volta. Acredito que, com o passar do tempo, conseguirei me isolar por completo do mundo exterior e, quem sabe, voltar ao estado inanimado em que me encontrava antes de despertar.
- Isso é uma fuga e não uma solução.
- Há ocasiões em que fugir é a solução. Por acaso o pássaro enfrenta o gato que está prestes a devorá-lo? A noite se rebela contra o Sol que nasce? Está errado, Tirugo. Há ocasiões em que é melhor fugir, esquecer e ser esquecido.
- Isso não é justo nem para você nem para os que se preocupam com você.
- Não quero que ninguém se preocupe comigo. Sou uma árvore, apenas isso. Deixe-me ser apenas isso.
Então, calou-se. Tirugo esperou, mas ele nada mais dis-se. Os sons exteriores chegavam a seus ouvidos abafados e distan-tes. À sua volta, só a escuridão.
- O motivo de minha vinda - disse, com a sensação de estar falando sozinho - é que talvez eu tenha encontrado uma finalidade para a sua existência. Você é uma árvore, está certo. Entretanto, também é um ser falante, um ser que pensa, que tem consciência de sua existência e do mundo que o rodeia. Isolar-se dentro de si próprio jamais irá mudar isso. Estive pensando. Nós temos pelo menos três pontos em comum: a lentidão de movimentos, que no seu caso praticamente inexiste, a longa vida, que você também me supera e a certa tendência à solidão. Estou velho, muito velho, e em breve morrerei. Não tenho filhos, nunca me casei, acho que não dou para isso. Ter filhos para mim seria perder a privacidade que me é muito cara. Contudo, com a idade a gente vai percebendo a necessidade de se deixar algo de si, mesmo depois da morte. Algo que diga que sua existência não foi em vão, algo que dê continuidade àquilo que você, seu pai, seu avô, seu bisavô e todos os demais antepassados lhe legaram. Quero que você seja a minha continuidade, meu discípulo, minha herança. Quero lhe legar todos os meus conhecimentos acumulador por mais de um século. As criaturas da mata precisam de alguém a quem pedir conselhos de vez em quando, alguém mais experiente, alguém que possa lhes dar confiança e fé no futuro. Gostaria que você fosse esse alguém. É uma nobre tarefa, como se fosse o pai de toda uma comunidade.
Tirugo esperou. Chegou a pensar que Nuvem Branca nem o tivesse escutado, imerso que estaria em seus próprios pensamen-tos. Já estava se preparando para ir embora, quando
 
   
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