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O TEMPO QUE O TEMPO TEM

Roberto Schima

Se o Tempo pudesse sentar-se ao nosso lado num alpendre, quantas histórias não teria para contar?
Grandes tragédias, pequenas alegrias, muitas aventuras, iguais doses de desventuras.
Talvez deixasse a humanidade de lado por julgá-la por demais mesquinha e presunçosa, além de insignificante diante do desenrolar maior das coisas.
Talvez se concentrasse no lampejo da primeira luz a afugentar as trevas, pincelando o Universo com a alegria das cores.
Ou, então, falasse sobre quando a vida surgiu - não necessariamente na Terra - e balbuciou a primeira de todas as palavras e sentimentos, provavelmente a mais melancólica: solidão.
Poderia também refletir sobre como um evento aparentemente insignificante aqui iria ter consequências de maior amplitude lá adiante, em outro lugar, quiçá muito além, como peças de dominó tombadas pelo destino.
Poderia contar num sussurro que a sementinha da vida já nascia com o fardo da morte, mas, filosoficamente cogitando, a morte não traria o fim em si mesma, porém o início de uma outra jornada.
Então, pediria um copo de água ou uma xícara de chá para umedecer a garganta e colocar as idéias em ordem. Quem sabe, não haveria um biscoito ou bolinhos de chuva para acompanhar?
Sentir-se-ia cansado, muito cansado de tudo o que vira, de tudo o que presenciara, as lições aprendidas e prontamente esquecidas. Sonhos desfeitos. Realidades mal feitas. A gota de tinta era a mácula do oceano.
Ah, sim, eventos grandiosos aconteceram, edificantes e memoráveis. Mas ele era o Tempo sem tempo, um tanto casmurro, um tanto senil, impaciente. Cantarolaria:
Fadado a permanência,
a eterna existência.
Oh, cuja essência
é somente existir,
mas foi penitenciado,
guilhões algemado,
pelo poder de refletir.
E, então, levantar-se-ia para ir embora, espreguiçaria, endireitaria a coluna, por mais que desejássemos saber mais, ouvir tantas e tantas histórias, compartilhar sua infinita experiência, sua enorme sabedoria.
Num meio sorriso, ele responderia, quem sabe, que de uma vida tão longa que, como Tempo, possuía, o que mais gostaria, além de poder esquecer, seria o privilégio que todos nós temos de se deitar em um amplo gramado, deixar-se ficar e, apenas, perecer.



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